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Na Rua da Amargura

Segunda, 17 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Chegou em casa e o cachorro estava morto. O bicho jazia no tapete, com a língua para fora e os olhos abertos. Carlos sentiu a visão embaçada: eram seus olhos ficando úmidos.

Nunca chorava. Suportava, estoicamente, um emprego que detestava. Não reclamava por estar sem grana, velho e barrigudo. Conseguiu se controlar até mesmo quando, meses antes, a Maria falou que não queria mais e foi embora.

Desistiu das pessoas. Trabalhava, ficava em casa, lia, assistia TV. Rex, O vira-lata feioso, era seu único amigo. Bicho quieto. Gostava de assistir TV, de dormir sob o pedacinho de sol que entrava pela janela e de mendigar uns nacos do prato de Carlos.

Juntos, os dois iam vivendo. Carlos se ocupando de suas coisas, Rex brincando com uma cabeça de boneca, seu único brinquedo.

Assim, quando o cachorro morreu, Carlos se sentiu triste, desamparado, o último sobrevivente de uma guerra nuclear, sozinho.

Então chorou. Tinha pena de si mesmo por não ter ninguém para abraçá-lo e dizer "não chora, o bichinho iria morrer algum dia". Sentou no sofá e ficou olhando para o pobre animal. Por horas.

Sua vida era miserável, mas ele havia se acostumado. Fica mais fácil quando se tem algo como apoio, mesmo que seja uma patética amizade com alguém não fala e lambe o próprio saco. Agora, sem ninguém, percebeu que o poço sempre pode ficar mais fundo.

inventado por: Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo