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Na Mala
Na Mala
Segunda, 23 de Outubro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa
Cinco para as nove. Euclípedes estacionou o carro completamente desalinhado junto à calçada e subiu correndo pela escada principal. O paletó enfiado em um braço só, a maleta meio aberta e os contratos caindo pelo vão. Não poderia se atrasar para a reunião marcada para às 8h30 com o direitor, mas o trânsito maluco da cidade destruiu qualquer pretensão de pontualidade. Chegou transpirando à sala da secretária e pediu encarecidamente para ser anunciado.
Resmungando um pouco do outro lado da linha, o diretor ainda assim aceitou receber o pobre infeliz. Euclípedes entrou na sala com seu jeitão estabanado, enxugando o suor da testa com um guardanapo de pastel e pedindo desculpas pelo atraso. Quando ia em direção à mesa do manda-chuva para cumprimentá-lo, um pé de cadeira colocou-se no meio do caminho e catapumba! Lá foi o pobre homem de cara no chão. Não só cara, mas também pernas, braços, peito e todo o resto que compõe a anatomia masculina.
Nada seria o tombo se a maleta não tivesse voando longe para acertar justamente aquele vaso de cristal italiano arrematado num disputadíssimo leilão. E quando tudo estiver perdido nesta vida, pode contar que ainda existem formas de marmelar ainda mais: a dita mala abriu com o choque brusco e expôs nas barbas do diretor todos os panfletos e fotos das atrizes pornôs que Euclípedes agenciava. O respeitável e bonachão corretor de seguros era um... Cafetão!
Chocado com a cena, o diretor colocou-se a apanhar do chão as imagens das meninas em poses pouco ortodoxas. Seu lábio inferior até tremia tamanho era o contrangimento diante daquela situação e daquele sujeito mentiroso. Enquanto isso, Euclípedes chorava baixinho na mesma posição em que o tombo havia lhe deixado. O corretor safado conhecia o conteúdo de sua pasta e aguardava o momento em que a maior de todas as bombas explodiria sobre sua cabeça: a filha do diretor, a gostosuda Anavalda, era uma das agenciadas. Tinha participado de produções notórias como "Tieta Libertina" e "Todas as Cabras Merecem o Céu".
O pai, ao deparar-se com a foto da filha acariciando uma jibóia amazônica, abriu um sorriso terno e exclamou:
- Quem diria, minha filha! Seguiu os passos e a carreira da mãe. E pelo visto tem o mesmo talento! He-he-he!
Feliz com a escolha da filha, que se deixou guiar por sua (ui!) vocação natural, o velho ajudou Euclípedes a ficar de pé novamente, deu-lhe dois tapinhas nas costas e assinou o contrato com a seguradora. Naquela noite nem precisou tomar o remédio contra a insônia. Sua maior preocupação na vida era o futuro da cria, e aquele já estava garantido. O corretor? Não entendeu nada, mas recebeu sua gorda comissão e até comprou um sofá novo para o escritório.
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