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Música da cidadeQuarta, 31 de Maio de 2006* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa A música não pára nunca na cidade. Ela vem dos assovios dos pedestres, das barracas dos camelôs, dos artistas de rua, dos bolivianos com flautas de bambu, das jukeboxes dos bares vagabundos, dos carros com sons tunados, das casas de shows, dos rádios das empregadas, dos walkmans dos boys, dos diskmans dos ultrapassados, dos ipods dos moderninhos e – Deus nos ajude – das máquinas de karaokê.Antes, um estilo dominava por um tempo, até ser substituído por outro. Hoje não. É uma profusão de funk carioca, reggae brasileiro, rap americano e rock, tudo misturado e ao mesmo tempo. Sem contar as loirinhas adolescentes, riquinhos surfistas e atrizes de novelinhas da tarde, todos empurrando umas musiquetas muito sem-vergonhas, mas que incrivelmente as pessoas engolem. Isso deve acontecer porque todo mundo está muito ocupado andando, pegando ônibus, estudando, comprando, vendendo, assistindo TV, tomando cerveja, fumando, comendo, acordando, dormindo, fazendo planos para viajar nas férias e não ligando absolutamente para nada. Todos querem realmente que o mundo se exploda, que o PCC queime tudo mesmo, que o Lula se reeleja e que a polícia do centro mate os mendigos a pauladas. Ninguém está afim de ouvir algo que precise de atenção, que não seja parte desse fluxo de letras melosas, ou imbecis, ou pornográficas. As pessoas querem batidas novas, querem o pastiche de ritmos e melodias reaproveitados, querem ver gente produzida na TV ou bandinhas espertas que se alimentam dos dejetos do passado. Tudo que foge disso é chato, entediante, sendo colocado de lado rapidamente. A música urbana é o som da escravidão. Se apuramos os ouvidos e prestarmos bastante atenção perceberemos que é o som de estacas, de máquinas a vapor, de engrenagens enferrujadas, do tambor que marca o ritmo dos remadores cativos. São ruídos monótonos e repetitivos, que anestesiam e empurram a vida para frente, que abafam os gritos de quem deve ser ignorado e que amplifica a voz dos que tem a permissão de falar.
inventado por:
Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo
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