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Morfina meu irmão, morfina

Segunda, 27 de Setembro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Andava sozinho na madrugada, procurando o carro. Não sabia onde tinha estacionado. O dia ficando claro.

Começou a noite bebendo sozinho. Estava aproveitando o seguro desemprego para dar uma de bêbado profissional. Todo dia no bar. Começou tomando cerveja, mas percebeu que assim gastava muito e demorava para ficar louco. Mudou para conhaque, pinga ou qualquer outra coisa que fosse barata e tivesse bastante álcool.

Dormia até muito tarde para curar a ressaca. Quando levantava, ia para a cozinha e preparava qualquer coisa. Geralmente alguma porcaria frita, com queijo velho por cima. Ele enfiava tudo dentro de um pão amanhecido e, para acompanhar , tomava uma coca sem gás ou um suco artificial.

Depois acendia um baseado e ficava assistindo televisão. Só canais abertos, um saco. Programas femininos, filmes nada a ver, Vídeo Show. Mas que remédio? Duro, precisou cancelar a tv a cabo. Tinha parado de ler também. Do lado da sua cama um exemplar do livro do Chico Buarque, marcado na mesma página há um tempão. Mas ele não ligava, estava achando uma bosta mesmo.

O começo da noite era a pior hora. Saudade. Olhava para o chão sujo, os móveis empoeirados, as roupas jogadas nos cantos. Se ela estivesse aqui nada disso estaria assim. Lembrou do filho da puta que levou ela embora: um amiguinho do trabalho. Veio até beber breja aqui em casa umas vezes, aquele veado. Tomando minha bebida e comendo minha mulher. Foda. Hora de ir para a rua.

Pegava o carro e ia para longe. Não tinha vontade de ficar nos bares de perto da sua casa, com aqueles tiozinhos pinguços. Gostava de ir para os do centro, que eram cheios de nóias e de vagabundos. Sempre encontrava alguém que podia conseguir um pozinho. Estalado, bebia a noite inteira, fumava um ou dois maços e, alguma vezes, acabava a noite com uma puta. Esse dinheiro ele se arrependia de gastar, mas na hora da loucura nem pensava.

Nessa noite estava triste. Tinha sonhado com ela. No sonho, seu amor estava em casa, como se nada tivesse acontecido, cuidando de suas plantas e contando sobre como foi o dia no trabalho. Ele perguntou sobre o fulaninho. Ela não o conhecia. O fulano não existia. Mas quando ele acordou nada havia mudado. A casa estava vazia. A realidade era a mesma.

E ele naquele bar, fumando, bebendo. Um cara falou alguma coisa sobre o jogo que passava. Começaram a conversar. Depois de um tempo, mais bêbado, contou sua história. Seu novo amigo falou que conhecia um remédio para a dor. Você precisa de um opiáceo natural amigo. O que é isso? Morfina meu irmão, morfina.

No estado em que estava, não conseguiu entender bem aonde o outro conseguiu arranjar a droga. Algo sobre um amigo médico, um membro amputado, um roubo, não sabia. Só sabia que queria usar, seria bom se a dor fosse embora. Precisava sair de si, largar o seu fardo, mesmo que por algumas horas apenas. Foi para a casa do homem, um apartamento maltratado, cheio de gatos, com um sofá surrado.

Quanto tenho que te pagar? Nada. É uma cortesia, você está precisando. Aplicou na veia. Segundos depois, sentiu um estado de torpor, como um isolamento das realidades do mundo. Entrou em uma calmaria onde realidade e fantasia se misturavam. Sonhava acordado, sem sofrimento. O afeto meio embotado e sem paixões. Estava longe, pleno. Deita no sofá irmão, curte o barato.

No meio desse sonho, pensou em sua história, mas sem lamentações nem sentimentalismos. Percebeu sua idiotice. Queria morrer, estava realmente disposto a se acabar por causa de uma mulher que não valia nada. Perda de tempo. Nem a amava de verdade, só tinha o orgulho ferido. Precisava seguir em frente. Outras mulheres viriam, mas ele deveria estar vivo para isso. Adormeceu. Após algumas horas foi despertado pelo amigo do bar. É melhor você ir para casa irmão.

Andava sozinho na madrugada, procurando o carro. Não sabia onde tinha estacionado. O dia ficando claro. Queria ir logo para casa. Era o primeiro dia de sua vida. Estava liberto.

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 2 já me deram atenção