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Mil Faces
Mil Faces
Segunda, 22 de Novembro de 2004
* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa
Desde a infância, Rogério carregava consigo um problema seríssimo: incorporava personagens de filmes ruins. Uma das facetas da esquizofrenia, afirmavam os médicos. Bastava sentar diante da TV durante à tarde e lá vinha encrenca. Certa feita, após assistir Os Tomates Assassinos, pintou-se de vermelho e entrou na cozinha montado num skate. A mãe, que estava preparando uma macarronada para a festa da igreja, não hesitou em corta-lhe o pé esquerdo para engrossar o molho. E assim nasceu o primeiro tomate sem pé do mundo.
Quando criança, no entanto, todos achavam muito engraçadinhas as caracterizações do menino. Duro mesmo foi quando ele cresceu e não perdeu a mania. Há alguns anos, Rogério assistiu a tantos filmes natalinos que achou bom negócio comprar uma fantasia de Papai Noel, já que o aluguel estava lhe saindo caro demais. Pois era todo dia a mesma história: bastava começar a sessão verspertina e lá estava ele com gorro vermelho e barba branca. O ápice do desconforto aconteceu quando ele levou duas ovelhas flatulentas para dentro da sala, pensando que eram renas. Mas o pior ainda estava por vir.
Rogério era um adulto correto, tinha emprego e até recolhia o INSS. Com algumas economias, comprou um Chevette e acoplou dentro dele um pequeno aparelho de TV, sua grande paixão. Como era vendedor itinerante de roupas de cama, pretendia assistir a seus filmes favoritos durante as longas tardes que perdia no trânsito caótico da cidade. Tudo transcorria bem, até àquela quarta-feira de janeiro em que uma tempestade fortíssima desabava do céu. Por um desses acasos que só acontecem nas novelas e nos contos do Morfina, a sessão da tarde anunciou: As Aventuras de Noé e sua Arca. E eis que a desgraceira estava armada.
Fora de si, Rogério embrulhou-se num lençol branco e colocou metade do corpo para fora do carro, em sinal de alerta. No meio da balbúrdia da Marginal, um guarda veio em direção ao veículo:
- O que o senhor pensa que está fazendo??
Rogério, olhar compenetrado, apontou para um gato de pelúcia preso ao vidro traseiro de seu carro e exclamou:
- Salvando os animais do dilúvio, ora essa!
O guarda ficou tão desconcertado que acendeu um cigarro e foi até a padaria tomar um café. Não demorou muito para que Rogério saísse do carro e iniciasse uma emocionante corrida atrás dos cachorros coxos, urubus e outros animais judiados que moravam acerca do rio. Dez ou quinze minutos depois, o Chevette estava completamente entupido das mais variadas espécies. Um urubu carniceiro tentava bicar o rabo de um gato, desencadeando um dos maiores quebra-paus que o mundo animal jamais viu. Com uma paciência bíblica, Rogério instaurou a paz entre seus protegidos e seguiu com a arca pelas ruas de São Paulo.
Eis que, não mais que de repente, o filme terminou. Como sempre acontecia ao final das películas, Rogério deixou de ser Noé imediatamente. Os animais, no entanto, estavam dormindo sob uma paz tão grande que não se deixaram notar. O rapaz entrou em casa, tomou banho e adormeceu. No dia seguinte, ao chegar na garagem para começar mais um dia de trabalho, colocou as duas mãos sobre a cabeça e gritou:
- Manhê! Passei no concurso da prefeitura! Liga no meu antigo trabalho e avisa que eu já fui contratado pelo Centro de Zoonoses, faz favor? Iupi! Emprego novo, vida nova!
E saiu dirigindo feliz pelas ruas da cidade, com um urubu descansando sobre o ombro.
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