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Meus AncestraisSegunda, 5 de Setembro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Isso foi no tempo em que Dom Pedro (o primeiro, não o segundo) vagava pela terra trajando ceroulas gigantes com um desenho do Batman estampado no traseiro. Mas isso não vem ao caso. O problema é que o patriotismo na minha família vem de longe. Não é à toa que meu tataravô ficou conhecido como Zezinho Mão no Peito. A vida não era fácil na primeira metade do século 18. Meu ancestral, desiludido com a vida na cidade, amarrou uma trouxa de queijo e presunto magro no lombo de um jegue, vestiu-se de verde e amarelo e rumou para um canto esquecido deste mundão de meu Deus. Foi assim que ele fundou a cidade que hoje conhecemos como Mogi das Cruzes, um grande pólo tecnológico do estado de São Paulo - quiçá, do mundo. Naquele tempo, no entanto, a cidadela ficou conhecida apenas como grande exportadora de hinos para o país inteiro.Meu tataravô tinha uma verve musical de causar inveja a Olavo Bilac. Ele sabia como poucos exaltar a natureza, a tanga dos índios, as ocas e o litoralzão do nosso país. Recebia centenas de pedidos por mês, das mais distintas cidades, para que escrevesse hinos de celebração a cada uma delas. E o fazia de maneira brilhante. Seu jegue, Lábaro Estrelado, não gostava muito de ser pintado a cada quinze dias com aquela tinta fedida dos infernos. Mas não tinha escapatória: vovô Mão no Peito fez questão, inclusive, que o projeto de cavalo aprendesse a relinchar os primeiros acordes do hino à Bandeira. Mas a vida não ia bem em Mouggy das Crouzzes, como escreviam antigamente. Vô Zezinho ganhava muito pouco ou nada com a composição de tão belos hinários. O trabalho, ainda que muito requisitado, era pouco valorizado. Foi então que o nobre senhor colocou Lábaro Estrelado para arar o terreno dos fundos do casebre, com o único intuito de criar uma horta de nabos para o próprio sustento. E foi assim que, do dia para a noite, Mogi transformou-se na maior exportadora brasileira de nabos em conserva. Não é preciso dizer que Vô Mão no Peito tinha uma ligação obscura com a megalomania. Nos rótulos, imprimia sempre a bandeira brasileira e frases nacionalistas como “Aqui, o que se planta dá”. Mas acabou se cansando desta vida de empresário do ramo alimentício. Foi então que, num surto incontrolável de patriotismo, vô Zezinho decidiu investir todas as fichas no maior patrimônio nacional: as mulatas sambistas. Em pleno século 18, não é difícil imaginar o escândalo que esta decisão acarretou. Mas ele bradava, aos quatro ventos: “Tudo em nome da nação! Tudo!”. Como o apelido “Vovô Mão no Peito” era muito grande, as mulatas começaram a chamá-lo de Sargentelli. O resto da história, todo mundo conhece.
por
Vanessa Marques | alguém!
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