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Medo de nada e de tudo

Quarta, 23 de Agosto de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Tinha medo de acordar um dia e ter oitenta anos. Geralmente as pessoas têm medo da violência, do PCC, da AIDS. Para Geraldo isso era o de menos. Nascera do meio de tudo isso e crescera junto com o efeito estufa. Estava costumado com o céu cinza, com os moleques do farol, com as conversas vazias e as pessoas sem alma. A única coisa que o deixava angustiado é que havia se habituado também aos meses passando em minutos, aos anos que, às vezes, desapareciam num piscar de olhos.

Evitava o espelho. Todas as vezes que se olhava via os sinais da decadência. O cabelo rareando, a boca murchando e os olhos cada vez mais opacos. Quantos planos tinham ficado para trás. O que havia agora era uma imensa vontade de não sair da cama de manhã, de voltar a dormir. Sonhava sempre e era grato por isso. Precisava só adormecer para encontrar um mundo totalmente diferente, onde coisas aconteciam. Nele, ele vivia e as cores não eram desbotadas como uma camiseta lavada mil vezes. Tinha vontade de ficar de vez desse lado.

Mas acordava. Todo dia. Tomava um banho, um copo de café, ia para o escritório. A profissão de Geraldo nem vem ao caso, já que para ele o trabalho era como carimbar a mesma folha de papel mil vezes por dia, ou seja, algo mecânico. Não tinha o menor amor por nada daquilo. Sentia-se, porém, como um urso no zoológico. Não queria estar lá, mas havia perdido a vontade de fugir.

Seu medo era o de continuar sendo esse animal domesticado para sempre. Preso à rotina, ao trabalho, àquela cidade cinza. Sempre pensava em romper com tudo isso, sair andando, desistir de toda essa babaquice. Definitivamente não queria ser um desses engravatados que levam tudo muito a sério, falam de dinheiro e tomam uísque.

Mas deixava a revolução para o dia seguinte, estava sempre muito cansado, precisava dormir...        

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