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Mais velho

Quarta, 21 de Setembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Um ano antes, exatamente, ele ligou seu computador, abriu uma página em branco do Word e... nada. A inspiração havia acabado. Parecia que já havia escrito sobre tudo. Sobre tudo o que tinha para falar com alguma paixão, pelo menos.

De lá para cá, seus textos eram apenas enrolação, cinismo, feitos por obrigação. Eram ocos, tristes. Mas não com aquela tristeza bonita do samba, eram só amargos mesmo, como a vida daquelas tias solteironas que enchem a casa de gatos.

Tentou se drogar para ver se ainda restava algo de original na sua cabeça, um sentimento novo ou mesmo uma lembrança esquecida. Nada. Conseguiu apenas ficar idiota, sentir-se deprimido, perceber que a sua vida era vazia e não estava indo a lugar nenhum. Ficou cansado da madrugada, das putas, dos bares nojentos, cheios de viciados. Chegou à conclusão que a boemia só tinha alguma poesia antigamente, agora tratava-se apenas de um bando de gente sem esperança, bebendo para esquecer. Não tinha vontade de escrever nada sobre isso.

Pensou em se apaixonar, mas não sabia por quem. Era difícil, criara concha em volta de si. Não tinha mais forças para fazer papel de ridículo, se expor, amar e depois se decepcionar. Não queria sofrer, nem causar sofrimento.

Estava ficando velho. Começou a achar que o importante era ganhar dinheiro. Que, aliás, isso era a coisa mais importante da vida. Uma mulher apareceria depois, a ciência diz que elas se atraem por estabilidade. Não queria mais ser poeta de bar, escritor de fim de semana, um daqueles ridículos aspirantes a artista. Seria burguês, um burguês com caminhonete, mulher bonita e um daqueles cachorros de raça. Sempre gostou mais de vira-latas, mas era o fim. Velho, capitalista e, quem sabe, até moralista e racista.

Depois de ter pensado em tudo isso, ligou o computador. Sobre o que iria escrever? Não achava que realmente tinha algo para dizer. Havia se comprometido em fazer uma coluna para o site de um amigo. Decidiu por algo engraçadinho, recheado de pequenas ironias e cretinices. Era o mais fácil, podia ser feito mesmo sem inspiração.

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 2 já me deram atenção