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Lutar sem perder a ternuraSegunda, 20 de Fevereiro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa A primeira experiência que Roberto viveu ao lado do comunismo não foi exatamente uma experiência comunista, por assim dizer. Aconteceu no Peru, já no fim da década de 90, época em que o Sendero Luminoso já tinha picado a mula para outras bandas. Eram tempos calmos e capitalistas em terras peruanas. Nem tão calmos assim, a bem da verdade. Depois de desconfiarem que o prefeito de uma pequena cidade chamada Pisco havia surrpiado uns cobres dos cofres públicos, um grupo embrulhou-se em bandeiras da nação e derrubou uma ponte a machadadas, impedindo a passagem de qualquer veículo para a cidade mais próxima. Roberto era motorista de uma distribuidora de cervejas, e acabou ilhado em Pisco por exatos seis meses. Lá ele aprendeu que o Pisco, por sinal, era a cachaça local. A mesma coisa que morar numa cidade chamada Pinga, em qualquer parte do Brasil. E Roberto, um sujeito com tendências revolucionárias e uma parca idéia do que significava comunismo, estranhamente não nutria hábitos alcoólicos. Gostava mesmo era de suquinho de acerola.Como não existia acerola no Peru, Roberto perdeu boa parte de seu amor à vida. Decidiu então criar um casal de lhamas em Pisco e gastar o resto do seu tempo lendo livros e ensaios sobre política. Em pouco tempo virou um especialista. Era um verdadeiro oráculo para aqueles que queriam armar revoluções mas não sabiam por onde começar. Depois de muito tempo gastando saliva para ensinar o beabá aos pobres diabos, decidiu rentabilizar seu conhecimento e lançou um livro chamado "Revolução para Iniciantes", onde ensinava por meio de fluxogramas quem fora Che Guevara, o que o Pinochet fazia com crianças desobedientes e desmembrava até mesmo a célebre frase "Yo tengo aquillo rojo", do nosso ex-presidente Fernando Collor. Ficou rico. Pegou as lhamas, botou dentro de uma mala das grandes e fugiu para Cuba. Não aguentava mais ser uma celebridade peruana. Queria sossego, mojitos e aprender na prática o que era o tal do comunismo. Marcou uma entrevista com Fidel e levou de presente uma saia de chola, pois ouviu falar que o ditador era um sujeito excêntrico quando o assunto era moda. Fidel gostou tanto da vestimenta que logo se meteu dentro das saias. Saiu cambaleante, pisando na barra, e tomou um tombo em pleno palco do encontro. A queda ficou célebre nas TVs do mundo inteiro e gerou centenas de piadinhas de duplo sentido. Com a ajuda da computação gráfica, a saia foi apagada - mas o tombo não. Roberto pagou um belo dinheiro pelo truque, já que temia que uma revolução boliviana fosse estourada por conta do ocorrido - a saia tinha vindo daquele país, ainda que ele negasse até a morte e dissesse que havia costurado o presente com as próprias mãos. Isso foi o estopim para que Roberto abandonasse a ilha e voltasse ao Peru - sem esquecer das duas lhamas, Romilda e Rolim, que já estavam meio velhuscas e capengas à epoca. Tentou a todo custo implantar um governo comunista no país. Para isso, passou anos derrubando pontes aqui e acolá, gritando palavras de ordem e desordem em frente ao palácio do governo e levando junto um bando de gente sem nada melhor para fazer. Criou desordem e balbúrdia em níveis poucas vezes alcançado em países sul-americanos. O próprio Roberto chegou a comparar-se a Che Guevara em uma entrevista para a TV equatoriana. Mas aconteceu o que ninguém esperava: Romilda e Rolim procriaram. Daquela bonita união, nasceram 3 filhotes que foram batizados como Sadam, Osama e Fujimori (os dois primeiros pela sonoridade dos nomes, e este último em homenagem ao homem que enterrou de vez o conversê comunista em terras peruanas). Roberto deixou de lado a política e passou a ser um feliz criador de lhamas num rancho perto dos Andes. Dizem que usou as últimas bandeiras da revolução como cueiros para os filhotes que nasceram em pleno inverno. E o Peru entrou nos dias mais capitalistas de sua história.
por
Vanessa Marques | alguém?
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