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Laboratório da AlegriaTerça, 12 de Setembro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Pelo menos aquele programa de televisão era melhor do que se apresentar no Circo Garcia. Adamastor, um chimpanzé, representava o Macaco Chicão no Laboratório da Alegria, uma série que mostrava as desventuras de um cobaia nas mãos de um cientista vagabundo, bebum e mulherengo.No circo era até mais ou menos. Nunca faltava banana e tinha a Shirley, trapezista. Gostava dela, não era como as modelinhos viciadas que agora apareciam aos montes em seu camarim. A vida era boa: a mais simples que um chimpanzé podia ter longe da floresta. Foi assim até o dia em que apareceu o Juarez. Se disse um caçador de talentos e falou que Adamastor tinha futuro, que poderia se tornar um astro da TV. O pior de tudo é que ele estava certo. A Globo estava fazendo testes com chimpanzés para a sua nova série. Adamastor foi o primeiro colocado entre mais de mil candidatos. Nos primeiros anos, o programa foi um tremendo sucesso. As pessoas viam Adamastor na rua e gritavam “olha lá o Chicão”. Ele não precisava pagar para entrar em bares, clubes, boates, nada. Tinha tudo o que queria. Estava sempre com um copo de uísque em uma mão e um charuto na outra. Não era filósofo. Não pensava na vida enquanto ela passava e assim não percebeu quando a decadência começou. Só aparecia bêbado nas gravações e, muitas vezes, estava tão mal que não dava para salvar o dia de trabalho. Quando alguém reclamava, ele dizia: “eu sou o Macaco Chicão! Eu mando nessa porra desse programa”. Na quarta temporada, a audiência da série começou a cair. Um novo programa – Dana, a Preá Lésbica – tornou-se o novo queridinho do público e da crítica. Assim, os executivos da emissora decidiram cancelar o Laboratório da Alegria. Lá estava Adamastor para filmar o último episódio da série. Seria a sua derradeira aparição como Macaco Chicão. Colocou sua jaqueta, vestiu sua famosa expressão de desdém e aprontou-se para enfrentar as câmeras. Não sem dar mais um gole na garrafinha de uísque. Foi bem. Depois foi para seu camarim e pediu para não ser incomodado. Acendeu um cigarro, olhou-se no espelho e achou a coisa mais ridícula do mundo um macaco agindo como humano. Na verdade, não havia nenhuma vantagem nisso. Lembrou de sua infância nas Savanas da África. Havia esquecido de quem era. Então pegou seu celular, ligou para o Juarez e pediu para que ele comprasse uma passagem só de ida. Iria fazer uma viagem intercontinental. Deu seu último trago no cigarro e bebeu o que restava no copo. Tirou toda a roupa. Não queria chegar em casa vestido daquele jeito.
inventado por:
Robinson Melgar | Oi. Fala comigo
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