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La Historia de Mi Vida

Quarta, 9 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Outro dia me perguntaram como virei escritora. Bom, foi depois de trilhar muitos outros caminhos que me levaram ao incerto – tão incerto que cheguei a me perder em Mauá às 2h da madrugada, e até hoje não sei como saí daquelas terras. Mas, como eu estava dizendo, passei quatro anos no Amapá, sustentando minha família com a venda de redes de sisal. O problema eram as farpas que entravam nos meus dedos durante o trançado. Assim que perdi o movimento do anelar esquerdo, tive que deixar o trabalho. Foi quando surgiu uma oportunidade que envolvia pesca submarina, noites regadas à tequila e mais algumas coisas que não podem ser ditas em horário comercial. Foram cinco anos neste esquema ilícito que proporcionou à minha família um padrão de vida muito superior àquele da época das redes. Mas como tudo o que é bom dura pouco, acabamos sendo descobertos e deportados para São Paulo.

Morando num muquifo no Arouche e sem muito o que fazer, comecei a rabiscar papéis de pão com palavras emotivas e lamuriantes que pipocavam em minhas idéias. Entre partidas de palitinho, horas perdidas diante da TV e biscates como boi de piranha em greve de metalúrgicos, alimentei minha veia poética de maneira irreversível. Desde então sustento minha família com os meus escritos, num padrão de vida um pouco pior do que o que tínhamos na época das redes de sisal. Mas o importante mesmo é fazer aquilo que você ama, e o dinheiro é conseqüência. Outro dia vi alguém falando isso num programa de auditório, sabe? Estou tentando colocar em prática, já que há duas semanas venho comprando cigarro fiado na venda do seu Turíbio. Aliás, o seu Turíbio é o pai de meus dois filhos, Romélio e Robéria. Sempre tive uma quedinha por homens mais velhos e rústicos, o que justifica o meu jeitão de mãe de família trajando vestidos de jérsei florido. Outro dia disseram numa resenha que este meu jeito de conciliar o tradicional e o moderno é uma coisa muito vanguardista. Ainda que eu não saiba o que significa isso, parece que é coisa boa.

Mas este texto é para dizer que eu estou deixando a literatura de lado. Acabou mesmo, e já aviso de antemão que nem vou me dar ao trabalho de responder as cartas que chegarão clamando por um novo livro. Minhas atenções agora estão voltadas ao romance, à vida bucólica em recantos paradisíacos e ao desfrute de toda a fortuna que construí após anos de trabalho e reconhecimento. E não queiram saber sobre minha vida amorosa, pois eu não falo mais sobre este assunto. Está na moda agora fazer tipo de quem quer estar longe dos holofotes. Mas, para que meus fãs não fiquem muito decepcionados e tenham uma boa recordação de mim, deixo aqui uma foto minha com o meu mais recente amor:



por Vanessa Marques | 2 alguéns