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JoséQuarta, 5 de Janeiro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Sentou-se na areia imunda da praia e tentou relembrar uns versos sobre esperança que havia aprendido uns dez anos antes, ainda na escola. Manhã do dia primeiro. A maré estava baixa, as garrafas de sidra permaneciam jogadas por todos os lados e alguns bêbados ainda dormiam em buracos cavados com as próprias mãos. Não era um dia como todos os outros, por mais que os céticos repetissem isso à exaustão. Era uma nova chance, uma nova etapa, uma nova embalagem lacrada e pronta para ser desfeita. Mas ele não sabia por onde começar.Olhou para os lados algumas vezes, buscou companhia. Queria conversar sobre a dádiva que recebíamos a cada 365 dias com a chance de um novo início. Começar, começar e começar de novo. Precisava libertar suas palavras, não continha o entusiasmo. Que bom que tudo aquilo ficou para trás. Que bom que todo o suor amargo está preso em um pedaço do tempo no qual jamais teria que pisar novamente. Que bom. Achou uns trocados no bolso. Queria beber, comemorar mais um pouco. Dançar ao som de alguma música agitada, mergulhar a roupa em uma piscina de champagne, colher morangos frescos, seduzir alguém. Olhou para os lados novamente, mas não encontrou ninguém. Até os cachorros já haviam ido embora. Foram começar suas vidas novas, trilhar caminhos, concluir etapas. Então levantou-se, ainda embriagado. Tentou equilibrar-se sobre um tronco de madeira com certa dificuldade, como se pudesse flutuar. Tirou a camisa e entrou no mar, seu corpo precisava ficar tão encharcado quanto sua alma. No primeiro mergulho, sentiu uma pontada que atravessou sua coluna de ponta a ponta. Abriu os olhos e, livrando-se do transe, notou que tudo - inclusive seus desejos - continuavam os mesmos da noite anterior. Sua casa, sua vida, sua dor: tudo igual. Juntou as poucas forças que restaram em seu bolso e saiu do mar, lutando contra o desânimo que havia impregnado sua pele tanto quanto o sal das águas. Caminhou lentamente rumo à sua velha vida nova.
por
Vanessa Marques | alguém?
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