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Halloween

Sexta, 5 de Novembro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

E então Daniel coçou os olhos para ter certeza de que o que estava em pé diante de sua porta era o que realmente estava em pé diante de sua porta. Paradas, duas crianças - ou dois anões, com a fantasia não dava para saber - diziam "prenda ou travessura". A mais alta estava com uma abóbora na cabeça. A outra, obviamente mais baixa, tinha um saco de papelão com olhos e uma boca que dizia "BUUUU" desenhados.

Depois que Daniel coçou os olhos, as crianças - ou os anões, com a fantasia não dava para saber - continuaram ali. Então, em seguida Daniel se beliscou, para ver se estava sonhando. As crianças continuavam ali, paradas. Então, Daniel começou a bater em sua própria cabeça, afinal aquelas crianças - ou dois anões, com a fantasia não dava para saber - poderiam perfeitamente ser fruto de sua imaginação. Elas continuavam ali.

Saiu de casa, pedindo, educadamente, licença às duas crianças - ou dois anões, com a fantasia não dava para saber -, foi até o jardim, encheu um balde na torneira e tacou em sua própria cabeça. Olhou para trás. As crianças continuavam ali.

Entrou correndo em casa, abriu seu armarinho com remédios, entre os quais havia um alucinógino, que ele guardava há tempos para usar em uma data especial. Esta intocado. Não, não havia tomado o alucinógeno um dia antes.

Foi então que Daniel finalmente se convenceu que aquelas duas crianças - ou dois anões, com a fantasia não dava para saber - estavam realmente brincando, em pleno interior do Brasil, de Halloween. E que queriam alguma preda ou fariam alguma travessura. Daniel ponderou de depois da semi-auto-flagelação que havia imprimido para descobrir se estava delirando ou se realmente havia duas crinaças - ou dois anões, com a fantasia não dava para saber - em seu jardim brincando de Halloween, poucas travessuras poderiam ser pior. Mas olhou para sua espada samurai de estimação na parede e ficou com muito medo de imolação. Então, foi à cozinha separar um ou outro doce. Achou uma goiabada e uma lata de atum.

Quando chegou à sua porta, as duas crianças haviam partido. Daniel coçou os olhos.

**********

Do outro lado da rua, quase na esquina, dois anões, cabisbaixos, conversavam.

- Só porque somos anões não ganhamos prenda.
- Mas como ele ia saber? Estamos fantasiados
- Sei la, talvez seja por essas nossas fantasias que estão muito bem feitas. E crianças não capricham nessas coisas.
- Mas claro que eu ia caprichar, você viu o trabalho que deu para pegar esse saco de supermercado em cima do armário e...

Foi então que um deles, ao se sentir ser atingido por uma lata de goiabada na cabeça, parou de falar. Ambos olharam para trás.

Na direção dos anões, o rapaz que atendera a porta minutos antes vinha em disparada. Gritava. E tinha uma lata de atum em uma mão. Na outra, uma espada bastante estranha.

Antes de começarem a correr, Igor, o anão da cabeça de saco de supermercado, lembrou da dificuldade em pegar o saco em cima do armário, da dificuldade em conseguir prenda e agora isso.

"Vida de anão não é fácil. Agora vida de anão com um saco na cabeça pedindo prenda em uma data festiva norte-americada no interior do Brasil com um cidadão insandecido atrás é bem pior. E eu com dó do meu primo Jânio, figurante da Praça é Nossa."



psicografado por Sérgio Vinícius | Comente