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Escrevendo poesia ruim no fundo do bar

Segunda, 12 de Junho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Entramos. Era o mesmo bar. As mesmas caras. A mesma música. Eu e o mesmo amigo. E o mesmo amigo era o mesmo. Desde os tempos em que andávamos a pé pelo bairro, sem grana, sem carro, sem destino certo. Ele permanecia o mesmo. Um dia elegemos o bar. E o bar manteve-se o mesmo por todos esses anos. E o amigo também. Eu mudei. Estava noivo. No mesmo bar comemorávamos meu noivado.

- E o Marcelo, como está? – Ele perguntava.

- Casado também. Está com uma filhinha linda e indo para a segunda.

- Esse cara não perde tempo.

- Não, não mesmo...

E lembrávamos os tempos de faculdade. E lembrávamos das namoradas e dos amigos.

- Sabe quem mais está casando? – Eu oferecia.

- Não. Alguém importante?

- A Ruth.

- Ouch...

Doera nele porque a Ruth era um grande amor. Calculei que era melhor ele saber por mim do que descobrir por aí. Enchi o copo dele, enquanto ele olhava para o cinzeiro transbordante. Ficara ainda mais quieto do que o seu normal. Ao menos ainda bebia.

- Pelo jeito só sobrei eu de solteiro na turma.

- Pelo jeito sim.

- Não acho que seja ruim, isso.

- Não, eu também não. Quer dizer, é uma coisa que não dá para forçar. Simplesmente acontece.

- Ou não acontece.

- É, ou não... – repeti, pela falta de coisa melhor o que dizer.

Tentei desviar o assunto, mas meu amigo tornara-se impermeável para conversa. Deveria estar afundando em auto-comiseração lembrando da Ruth. Ou de qualquer outra namorada que tivera e deixara escapar. Enchi os copos mais uma vez e deixei o silêncio escoar pela mesa.

- Mas que porra!! – Ele levantara-se de supetão e, esbarrando em cadeiras e mesas, caminhou a passos duros até o fundo do bar.

Eu pude apenas observar atônito, para onde ele seguia. Seguia para uma mesa mal iluminada, onde sentava-se um moleque. O jovem estava vestido de preto e usava óculos escuros. De seu cinzeiro, o tecido tênue da fumaça cinza azulada do cigarro fluía. Ele escrevia em algumas folhas de caderno, as quais meu amigo fez questão de arrancar debaixo da caneta que cortava a brancura. Foi nesse momento que eu percebi que meu amigo não encontrara um conhecido e estava pronto a arrumar confusão. Corri para os dois.

- E ainda por cima tá uma merda! – Meu amigo dizia, virando e revirando os manuscritos do garoto, que permanecia, surpreendentemente calmo.

- Meu, o que você está fazendo?

- No mínimo tentando mudar um destino selado.

Ante a minha cara de total surpresa e incompreensão, meu amigo nada fez a não ser virar as páginas em suas mãos mais algumas vezes, apenas para constatar o que já havia concluído.

- Merda. Tudo merda. – E virando para o garoto – Onde você pensa que vai com isso? Cai numa real! Dá uma olhada à sua volta!

Meu amigo empurrava as páginas amassadas de volta ao garoto, derrubando garrafa, copo e cinzeiro.

- Olha bem para mim e diga se é isso que você quer para a sua vida, seu fracassado! Levanta daí!

O garoto prontamente levantou e, abandonando seus textos, foi sendo empurrado em direção à porta do bar. À rua. Meu amigo dedicava-se agora a rasgar em pequenos pedaços os papéis em suas mãos.

- O que é que foi isso? Que história é essa de mudar o destino?

- Só pode ter sido nesse momento. Foi no bar, definitivamente foi no bar, escrevendo poesia ruim e achando que era o maior boêmio. Foi no bar e foi neste bar.

- Foi no bar que aconteceu o quê?

- Que eu me tornei o solteirão da turma. O desajustado. O inapto para relações sociais. Foi isso aqui – e me mostrou o punhado de pedaços de papel – que me fez o que eu sou hoje.

- E aquele moleque...?

- Sou eu.

- Hã?!

- Sou eu. Sou eu aquele moleque. Aliás, ele é que sou eu. Antes. No fim da adolescência.

Olhei de novo, enquanto ele saía do bar. Era mesmo. Era meu amigo, jovem, vestido de preto, cabelos compridos, óculos escuros e espinhas na cara escrevendo poesia ruim no fundo do bar.

- E agora? – Perguntei.

- Não sei. O tempo dirá. Pelo menos a poesia melhora.



coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 2 sublimes almas