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Enterrando Heróis, Patriarcas, Suicidas e Traidore

Terça, 11 de Julho de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Depois que a festa acabou, e a italianada aprontou aquela tremenda zorra em tudo quanto é cantina e pizzaria da cidade, o povo brasileiro tratou de erguer o nariz, dizendo que na próxima copa teriam mais sorte e foi enterrar seus mortos. Com uma pá suja jogada sobre o ombro em uma mão e arrastando o Carlos Alberto Parreira pelo colarinho com a outra, rumou para o Cemitério Nacional. Pendurado no pé do Parreia, lógico, vinha Zagallo.
Parreira vinha plácido, já Zagallo, não cansava de reclamar. Resmungou o caminho inteiro, enquanto observava o sulco na terra que a passagem do povo brasileiro arrastando seus heróis caídos causava.
Triste e amuado, o povo brasileiro parou enfrente a cripta e meteu a pá na terra, logo revelando uma pesada porta de pedra, que ele puxou com sua força de 170 milhões de habitantes.
- Eu não vou voltar pra lá, vocês vão ter que me engolir!
- Ah, ninguém merece, pensava o povo enquanto grudava o cangote do velho lobo e o atirava de volta, de onde não deveria ter saído.
Virou-se para parreira para enxovalha-lo para dentro, mas comportado, ele desceu sozinho.
- Mas não tem nada para fazer aqui! – protestava ainda Zagallo.
- Toma, vai lendo e se atualizando, resmungou o povo brasileiro e arremessou para dentro da cripta um exemplar do livro do Parreira.
E não é que ele ainda não se conformou, tentou, forçou, puxou, mas só sentou no seu banquinho duro de pedra quando o povo atingiu-lhe as fuças com a pá.
- Quieto, Zé!
- E eu? Posso sair? Já estou aqui a muito tempo...
- Não, Lazaroni, não pode.
- Ah, puxa...
Depois de arrastar a pesada porta, cuspiu nas duas mãos e tornou a acumular terra aos montes na entrada da cripta. Com muita atenção conseguia escutar os técnicos reclamando lá dentro, um fiapinho de voz, mas era assim mesmo, logo eles cansavam e dormiam, jogavam palitinho ou iam procurar uma festa baile com o Agnaldo Rayol.
O povo satisfeito, enterrou o bico da pá no chão e buscou no bolso de trás da calça surrada um pequeno papel dobrado muitas vezes. Enxugando o suor da testa, abriu o papel e leu:
- Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Kaká, Adriano... Vixe, isso vai me dar um trabalho...

coisas que acontecem por aí sempre acontecem com Felipe Tazzo | 1 misericordioso comentário