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Dois anos sem Salário

Segunda, 18 de Setembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Pierre Salário era um ascensorista muito prestativo, que trabalhou por 24 anos no prédio da Bolsa de Café. Seu Salário, como era conhecido pelos mais íntimos, sabia tudo sobre a história do grão. Ele tinha orgulho de dizer que a primeira muda tinha sido trazida pelo Sargento-Mor Francisco de Mello Palheta, da Guiana Francesa, aliás, sua terra natal.

Antes da construção do elevador da Bolsa, o velho Salário fugia da portaria, pela qual era responsável, para acompanhar a cotação do café. Emengarda, a moça que cuidava das catracas do prédio, ficava furiosa, porque sempre sobrava pra ela todo o serviço pesado.

Assim, ele acumulou um conhecimento incrível e sempre tinha todas as respostas na ponta da língua, como você pode conferir em entrevista exclusiva ao Coffee News.

- Seu Salário, qual o maior produtor e exportador mundial de café?
- O Brasil, claro, por isso que eu vim pra cá.

- Dá pra saber se o café é de boa qualidade pelo aroma?
- Dá sim. Se ele tem cheiro de terra, não presta não. Eu já vi muito desse tipo.

- Qual o melhor recipiente para se tomar café?
- Xícara de porcelana. Um luxo, eu tenho mais de 22 mil.

- E é claro que sua bebida preferida é o café, né?
- Errou, é água de coco.

- Como assim, seu Salário, água de coco?
- Pra falar a verdade, eu não gosto muito de café, ele deixa um gosto meio amargo na boca, sabe como é, né? Mas, como não existe a Bolsa da Água de Coco, eu me viro com a de Café, mesmo.

Depois que a entrevista foi publicada e o segredo de seu Salário foi descoberto, ele nunca mais foi visto. E isso já faz dois anos. Desde então, a Bolsa de Café entrou em crise e, incrivelmente, o Brasil virou o País do Coco.


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