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Dia de pagamentoQuarta, 20 de Setembro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Peço perdão por minhas idéias anuviadas. Ressaca. Sim, há dois anos trabalho sem receber salário. Salário em dinheiro, no caso, já que tenho outro tipo de recompensa. Explicar-me-ei antes de deixar você confuso.Há mais de seis anos sou empregado do setor de expedição da empresa Caninha Jaguatirica SA. Nunca fui de beber, muito menos pinga. O fato de eu trabalhar numa distribuidora de cachaça não mudava isso. Meu negócio era suquinho de frutas, sério mesmo. Vou me adiantar, pois no momento meu pobre cérebro não está para encadeamentos lógicos e transições sutis. Ele ocupa-se em sobreviver. Mas me distraio. O que devo dizer é que a Jaguatirica SA passou por dificuldades e, quando estava à beira da bancarrota, sugeriu aos funcionários o pagamento em pinga. Creio que você deva achar essa passagem inverossímil, mas lembre-se que a vida muitas vezes o é. Depois que começou o negócio, eu revendia as garrafas que recebia para o bar do seu Zé. O problema é que ele nunca precisava de todas. Na verdade, não surpreendia a empresa estar em tão maus lençóis: seu produto era de péssima qualidade. Então, um dia, sentado na sala e vendo aquele monte de garrafas se acumularem num canto, pensei com meus botões: – Vou é tomar essa merda. Dei um gole. Horrível. Persisti: mais um gole. Nojento mesmo. Vomitei no terceiro, mas não desisti. Havia trabalhado para ganhar aquelas garrafas. Bebi, bebi e, maravilhado, percebi que estava bêbado. Levantei, fui ao quintal e chutei meu cachorro. Depois fui à cozinha, vi a louça suja e dei um pau educativo na minha mulher. Sim, sou uma pessoa ruim. A sobriedade é que não me deixava ver isso. Nesse dia eu decidi: “Vou viver ao deus-dará. Se cortarem minha luz, faço vela de bucha; se cortarem de novo, faço uma fogueira na sala.” Mas não deixei de trabalhar. Eu queria virar um pinguço e a empresa estava pagando em pinga. Levei uma garrafa embaixo do braço. Quando me questionaram a respeito, eu disse: “é o meu almoço”. Aí avisei que quebraria a cara do próximo curioso. Sim, faz dois anos. Eu nem sei mais o nome dos meses, a Mariazinha que me lembrou. Disse assim: “faz dois anos que estamos nessa vida, não agüento mais viver assim”. Claro que levou uns tabefes para deixar de ser boca-mole. Nesse dia ela juntou as coisinhas dela e foi embora de vez. Esse dia foi ontem. Ou anteontem. Ah, tou te falando isso porque você diz que seu salário vira pinga. O meu salário é pinga, não preciso converter. Não sei se sou feliz, mas estou sempre muito bêbado para ficar triste. Tento encarar as coisas de um jeito positivo, sabe? Só ando meio cansado, essa vida de bêbado profissional cobra o preço cedo. Mas tudo bem, hoje é um dia bom. É dia de pagamento.
inventado por:
Robinson Melgar | Oi. Fala comigo
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