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Dia da revelaçãoSegunda, 7 de Novembro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa – Desculpa a demora, é que fui tomar uma cerveja com o Roberto depois do trabalho.– Sério? Que estranho... Liguei para ele, porque seu celular só caia na caixa postal, e ele me disse que não estava com você. – É mesmo? Ah... Deve ter falado isso na hora em que fui ao banheiro. Ele é todo metido a engraçadão, você sabe. – Na verdade, não sabia não. – E por que você me ligou? – Ah, era para avisar que eu iria demorar também. – Sem problema, e o que você foi fazer? O dia da manicure não era ontem? – Era, fui visitar a minha irmã. – Como é que é? – Fui visitar a Carla, ué... Qual o problema? – É que eu vi a Carla, ela estava no bar. Agora me explique como é possível ela estar em dois lugares ao mesmo tempo? – Que história é essa de que ela estava no bar? Ela nem gosta de bar! E como você não tinha lembrado disso antes? – Ah, quer saber? É mentira, não agüento mais esconder. Eu estou saindo com a sua irmã! – Filho da puta! Como você teve coragem, aquela vagabunda. E está gorda ainda! – Você também não está tão magrinha. – É mesmo? O seu amigo Carlos não acha não. – Não vai dizer que... – É isso mesmo que você está pensando. Eu falei com ele hoje, mas não foi pelo celular. – Caralho. Eu sou um viado mesmo. – Isso você é. Tenho outra coisa para te contar: sou um transexual. Antes da operação eu me chamava Janjão Torres! – Deus! Como pode? Estou tonto... Pelo menos havia uma mulher de verdade na minha vida: a Carla. – É aí que você se engana... – Não acredito, não sei mais quem eu sou... – Ah, sobre isso... Quero te dizer que você não é exatamente quem pensa que é. – Não estou entendendo, deixa eu me sentar. – Sua mãe sempre escondeu, mas você é adotado. – Como? E quem são meus pais? – Não sei bem, a sua mãe adotiva falou sobre uns mendigos romenos. – Romênia? Que lugar é esse? – Ah sim, não sei se é o momento certo para te dizer, mas o mundo não vai só até os limites de Osasco. – Como não? Meu pai me falou um milhão de vezes que depois de lá tem o abismo do final do mundo. Começo a desconfiar que essa história de que a terra está apoiada em uma tartaruga gigante é mentira também. – Mas é claro que é. Como você pode acreditar em tudo? – Não é verdade! Eu não sou tão ingênuo. E quer saber de uma coisa? Não preciso ficar ouvindo isso! Meu avô me falou que tenho superpoderes, que posso voar como o Superman. Ele disse que eu poderia usar esses poderes quando chegasse o momento. Vou embora, vou voar para o pólo norte, preciso pensar. Atirou-se pela janela. A esposa nem teve tempo de avisar que aquele senhor que ele achava ser seu avô era apenas um velho maluco, que ia amolar facas na casa de seus pais adotivos de vez em quando.
inventado por:
Robinson Melgar | Um quis ser meu amigo
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