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Coisas que a faculdade ensina

Quarta, 11 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Quando criança, era um menino tímido, que tinha medo até de falar “oi” para as coleguinhas. Chegou a passar meses fugindo de uma garotinha que falava que o amava. A coisa não mudou muito na adolescência. Só aos quinze ele beijou uma menina. A primeira namorada, aos dezessete, e o relacionamento durou poucos meses.

Por ser tão acanhado, Carlos Alberto tornou-se um rapaz recluso. Isso fez com que ele tomasse gosto pela leitura e também pela escrita. Assim, quando foi escolher a faculdade, achou que Comunicação era o mais adequado. Como não era muito fã de estudar, entrou numa universidade particular.

No primeiro dia de aula, teve uma tremenda surpresa: a maioria dos alunos da classe eram mulheres. Carlos Alberto ficou perturbado, ele teria que vencer o seu embaraço de uma vez. Decidiu sentar-se na primeira fileira, onde só havia garotas.

Os trabalhos em grupo iniciais foram difíceis: o rapaz suava frio e gaguejava cada vez que uma das colegas se dirigia a ele. Os mais maldosos poderiam pensar que isso era sinal de bichisse, mas não era o caso. O fato é que Carlos Alberto adorava as mulheres mais do que qualquer homem e, por isso, dificilmente relaxava junto a elas. O seu jeito reservado, porém, acabou atraindo a atenção de muitas das meninas, que adoravam conversar com o rapaz e observá-lo comportando-se como um animal acuado.

Alguns meses depois do início das aulas, começaram as excursões ao boteco que ficava em frente a faculdade. No começo, Carlos Alberto ia e ficava meio de canto, já que não sabia beber. Mas, com o tempo, percebeu que a cerveja era realmente gostosa. Melhor: quando bebia, sua timidez acabava e ele ficava desenvolto e articulado. As amigas da classe achavam uma graça ver como aquele rapaz quieto ficava todo atirado depois de apenas duas latinhas.

Numa dessas noites quentes, que vêm depois de um dia de chuva e em que o ar fica com cheiro de água, Carlos Alberto e uma colega decidiram não voltar para a aula após o intervalo. Ele convenceu Carla dizendo que a lua estava linda, cheia, e que era um desperdício enclausurar-se naquela sala de aula numa noite assim. Por algum motivo, ela gostou desse papo-furado e não deixou o bar, as outras foram trancar-se.

Tomaram mais algumas latinhas no balcão. Ele percebeu que ela ria o tempo todo, mostrando os dentinhos brancos. Tinha também alguma coisa no olhar, parecia esperar por algo... Foi então que, sem pensar, Carlos Alberto pegou sua xará pela cintura e a beijou. Ela retribuiu.

Isso aconteceu mais algumas vezes, mas Carla tinha um namorado. Assim, depois de um tempo, eles pararam com os beijos tornaram-se amigos. Nunca contaram nada para ninguém, mas as outras meninas percebiam a proximidade entre os dois e sentiam uma ponta de ciúme. Por isso, começaram a tratar Carlos Alberto com, digamos, mais carinho.

Assim, pouco a pouco, Carlos aprendeu muitos dos jogos que as mulheres usam. Ficava atento a todas as intrigas, cenas de ciúme e carências. Usava essas informações para fazer novas conquistas. Já no quarto ano, enquanto apresentava um seminário e observava a classe, percebeu que tinha se envolvido com, pelo menos, metade das colegas. Ainda havia mais uma ou duas vítimas em potencial, que ele atacou antes da formatura.

Depois que o curso acabou, ficou apenas seis meses sem estudar. Não conseguiu se acostumar a não estar cercado de mulheres todos os dias. Escolheu a dedo a faculdade seguinte: moda. Além de ter dezenas de meninas na classe, quase todos os seus concorrentes eram gays. Foram quatro anos de alegria.

Quando o curso de moda terminou, Carlos Alberto, incrivelmente, parecia estar um pouco mais maduro. Queria se estabelecer, ficar com uma situação mais tranqüila. Decidiu fazer mestrado, para poder dar aulas. Os dois anos seguintes foram tranqüilos, a turma era pequena e muitos dos alunos já eram casados. O interesse de todos era estudar. Carlos começou a se relacionar com uma garota e estava prestes a ficar noivo.

O mestrado acabou e, ironicamente, Carlos Alberto foi convidado a lecionar na primeira faculdade em que havia estudado. Aceitou. Sentiu uma tremenda nostalgia no momento que ingressou no prédio da instituição. Entrou na classe e deu um “boa noite” para os alunos, ansioso por começar.

Então, na primeira fila, bem perto de sua mesa, viu uma menina sorridente. A garota era muito, mas muito parecida com Carla, aquela que ele havia beijado na noite de lua cheia, há mais de dez anos. Percebeu, sem nenhum pesar, que seria demitido do emprego em pouco tempo.

inventado por: Robinson Melgar | Oi. Fala comigo