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Chimpanzé na Perdição

Quinta, 15 de Setembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

- Ô de casa! Clap, clap, clap.
- Pois não?
- Hola! Acá és el Circo Estatal de Cuba, cierto? Puedes llamar su chiefe, per favor?
- Oi. Eu sou o chefe aqui. E pode falar em português, porque portunhol embrulha meu estômago e me dá vertigem.
- Você é a autoridade máxima, então? Será que é pedir demais que você tire essa fantasia imunda para falar comigo? É que me sinto até desrespeitado em ter que fazer negócios com um leão de pelúcia.
- Negócios?
- É. Este aqui é o Honesto, meu chimpanzé de estimação. Vim tentar empregá-lo em seu circo. Mas preferia que você tirasse a fantasia antes.
- Se eu tirar só a máscara melhora?
- Já ajuda.
- Então fale-me sobre o macaco. E explique também como você mantém um animal deste porte em sua casa.
- Pois bem. Lá pelos idos de 1994, eu ouvi a torneira do tanque abrir sozinha enquanto assistia ao futebol na TV. Corri até o quintal e um mico-estrela estava apoiado sobre um balde, tentando molhar a cabeça na água que escorria. Fiquei sensibilizado, pois quem tenta molhar a cabeça com água gelada geralmente está bêbado ou de ressaca, e eu bem sei o quanto esta sensação é incômoda. Armei uma arapuca com um pedaço de queijo coalho e o macaco caiu. Desde então, ele é mantido em cativeiro nas dependências do meu quarto-cozinha. Mas saiba que não reclama de maus tratos, não. Bebe o quanto quer, assiste à TV o dia inteiro e me faz companhia ouvindo minhas lamúrias. Até palpita sobre minha vida, vez ou outra.
- Então o macaco fala?
- Calma, ainda não terminei a história. Depois de dois anos em cativeiro, percebi que ele não era mais um mico-estrela. Virou este chimpanzé que conhecemos hoje, grande, robusto e um pouco embriagado. Era Flamengo, mas converteu-se ao Corínthians só para torcer ao meu lado. É um grande amigo. Mas sabe como é, o desemprego bateu à minha porta e aqui estou tentando arrumar uma serventia para o bicho, que só me dá gastos e um pouco de alegria.
- Sei. Acho que entendo. E por que ele se chama Honesto?
- Porque uma vez ele encontrou dez reais dentro do bolso de uma calça de moletom minha e devolveu-me a bufunfa sem titubear.
- E ele estava usando a calça?!
- Sim, ele sempre pega umas roupas minhas emprestadas no inverno. Mas é um bicho honesto, nem me preocupo.
- Mas conte-me, ele fala muito?
- Pouco. Não é de conversa fiada, não. Não precisa se preocupar com relação a isso porque ele não vai sair tagarelando por aí.
- Mas o que ele fala?
- Bom, vou te mostrar. Honesto, qual era o nome da sua mãe?

- Agadedê.

- E ela tinha carinho por você?

- Ô.

- Escuta, sem querer interromper o macaco, mas ele está bêbado?
- Sempre está um pouco, mas não queira vê-lo sóbrio. É um bicho sorumbático quando não está sob o efeito do álcool.
- Bem que percebi que ele estava cambaleante e com os olhos esbugalhados...
- Ah, mas isso não é efeito da bebida, não. É que ele tem labirintite.
- Quanto você quer por ele? Um dos meus maiores projetos de vida aqui no circo é implementar o número do chimpanzé enfermo! O Honesto me parece perfeito para o papel.
- Dois engradados de cachaça.
- Um engradado.
- Um e meio e não se fala mais nisso.
- Fechado.

Ploft!

- Ih. O Honesto desmaiou. Vou buscar a cadeira de rodas dele lá em casa.
- Que nada. Tá sem sinais vitais. Negócio desfeito.
- Hum... Será que eu posso usar uma fantasia de chimpanzé de pelúcia para o número do macaco enfermo e a gente mantém o acordo da cachaça?
- Uma fantasia assim, igual à minha?
- Isso, só que um pouco menos suja. E de macaco, porque se for de leão, vamos ter que mudar o nome do número.



por Vanessa Marques | alguém?