![]() |
|
![]() |
Bola na CaçapaQuarta, 18 de Janeiro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa - Marca mais 7 aí.- Pra mim, né? - Não. Você tá louco? Acabei de matar a preta. Mais sete. - Sim, mas não cantou a caçapa. - Cantei sim, senhor. Eu disse ‘no meio, do lado de cá’. Você ouviu bem, não se faz de louco. - Eu ouvi, mas você não cantou o repique do lado de lá. Não disse ‘vou cortar do lado de lá e matar aqui’. Simplesmente disse ‘no meio, do lado de cá’. - Filhão, se eu não fosse dar o repique, eu ia fazer o que? Me parece meio óbvio que para a bola chegar aqui, ela tinha que rebater lá. Marca mais sete aí e pára de chorar. - Mas peraí, peraí. Ela também não caiu direto na caçapa. Ela bateu no bico e só porque estava bem fraquinha acabou caindo. Você não cantou o ‘bico’. Vou anotar sete para mim. - Porra, se eu soubesse que ia dar bico antes de cair, obviamente, eu desviaria do bico e jogaria direto na caçapa. Marca logo, vai. E vai rápido que a gente joga por hora aqui e o tempo tá correndo. - Ah, vai começar com mesquinharia, é? Pode deixar que eu pago sozinho. Mas quero, antes, resolver a situação. - A situação tá resolvida, meu filho. É sete para mim. Marca aí, volta a bola da caçapa que eu vou matar de novo. - Caralho. Você já está querendo ganhar no grito. E assim não dá. Assim não vai dar pra jogar mais. Vamos resolver a coisa civilizadamente. Como dois adultos que somos. - Hummm. Palitinho? - Jokempô. Que tal? - Pode ser, pode ser. - ... - Um, dois, três e... - ... - Ganhei. - Você esperou. - Esperei nada. - Esperou sim. Vamos de novo. - Mas... - Mas nada. Vamos outra. - Ai cacete. Um, dois três e... - ... - Ganhei. - Você esperou de novo. - Não esperei. - Esperou. - Nã, nã - Si, si. - Ai, Deus, e agora? - Palitinho. Pra não ter discussão. - Mas eu já matei a bola preta, já ganhei no jokempô. Que mais falta? - Ah, quer ganhar no tapetão de novo, né? Bem que eu sabia que você era charlatão. - Tá, tá. Vamos de palitinho. - Ok. Eu preparo. Se você pegar o menor, você ganha. Se não, eu ganho. - Beleza. - ... - ... - Vai, puxa. - Peguei o menor. Ganhei. - Não, peraí. Agora que reparei: esses palitos não são de madeira de lei. São de madeira compensada. Pelas leis internacionais, não podem ser usados como desempate de qualquer coisa. Sugiro tirarmos no par ou ímpar. - Deus! Como você é trambiqueiro! Teoricamente, os sete pontos já são meus. Já ganhei na mesa, depois no jokempô e, agora, no palitinho. Vou ter ainda que ganhar de você no par ou ímpar? - Ah, então agora o senhor é o grande fodão dos esportes de boteco, é isso? - Não, não é isso, mas... - Ah, senhor supremo vencedor dos esportes botequeiro, parabéns. - Tá, tá, não seja criança. Par. - Ímpar. Um dois três e... - Oito. Oito é par. - Não senhor, dedão não vale. Deu sete. Ganhei. - Se o meu não vale, o seu também não. Então deu seis. Seis é par. Chupa. - É, mas o meu dedo mindinho é de plástico. Considerando isso, deu cinco. Já que plástico não é dedo. E antes que você diga, o indicador também é. Mas veja que o dedo médio está seriamente prejudicado por causa desta aliança. Sendo assim, deu 3. Três é ímpar. Dizendo isso, correu para a mesa e voltou a bola sete. Colocou sete pontos no placar a seu favor e se inclinou para jogar. O amigo, ainda meio besta com a situação, finalmente entendia porque o outro era tão ruim jogando bilhar.
psicografado por
Sérgio Vinícius | Um comentário
|