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As Mazelas do Disque-Amizade

Segunda, 25 de Outubro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Esta é do tempo em que eu buscava por conforto e carinho no colo dos serviços de disque-amizade. Não vou imprimir aqui um tom saudosista e dizer “bons tempos, aqueles”, porque na verdade eram tempos de merda. Tempos em que eu precisava virar a noite trabalhando em uma sala cheia de computadores para poder pagar a faculdade no fim do mês. Tempos em que eu dormia em pé dentro de ônibus lotados. Tempos em que eu jantava às 8h30 da manhã. Tempos em que eu procurava um pouco de alento conversando com estranhos pelo telefone.

Sabe-se lá por qual motivo, a empresa na qual eu trabalhava não havia bloqueado o número 145 na central telefônica. Qualquer outro número com tarifa exclusiva era travado, no entanto o 145 permanecia livre, leve e solto para ser discado sempre que alguém julgasse necessário. E eu, que não tinha companhia e tampouco volume de trabalho, aproveitava a porta aberta para passar meu tempo batendo papo com outros psicopatas que atravessavam noites inteiras com a orelha pregada ao telefone.

Certa noite, após duas outras pessoas desligarem, passei alguns minutos de trelelê com o último ocupante de uma das salas. E eis que, em pouco mais de dez minutos, eu descobri que estava conversando exatamente com o amor da minha vida:

- Sabia que eu gosto de U2?
- Jura?! Eu também!

Como se fosse realmente um acaso encontrar um sujeito que gostava da mesma banda que eu. Ah, a ignorância dos 18 anos...

Logo em seguida, passamos a bater papo pelo computador. Foram duas noites inteiras trocando idéias e confissões pela internet. Além de gostar de U2, nós dois adorávamos chocolate. Não é coincidência demais? Precisávamos nos encontrar o quanto antes, afinal éramos almas gêmeas e não podíamos permanecer separados por tão poucos quilômetros.

- Você tem uma foto para me mandar?, pedi. 
- Claro!

Um arquivo estranho aportou na minha caixa postal. Era uma espécie de fotocópia rústica de alguma coisa que lembrava as feições de um ser humano. Impossível identificar qualquer forma ou traço naquela imagem esfumaçada e escura. Parecia um desenho feito com carvão por uma criança em idade pré-escolar. Ainda assim, topei um encontro no shopping, marcado para o dia seguinte.

Chegando em frente ao cinema, local que havíamos marcado para o grande momento, vi apenas um senhor meio gordo, dono de poucos fios de cabelo e com uma camisa meio torta enfiada dentro das calças. Nas mãos, segurava um pirulito de chocolate em forma de coelhinho. Olhei para os lados rezando para que outras pessoas chegassem e eu pudesse sair à paisana, mas não consegui. Meu olhar de medo me denunciou. Era ele.

- Oi, querida!, gritou o barril, acenando com o pirulito em minha direção. 
- Ahaa, errr, gasp! Oi! Que coincidência, também comprei um pirulito de coelhinho para você, mas esqueci no carro! Vou correndo lá buscar, já volto!, exclamei em passo apressado no sentido contrário, abrindo uma distância segura do elemento.

E foi assim que fiquei conhecida mundialmente por minha grande capacidade de inventar desculpas esfarrapadas na última hora. Por via das dúvidas, nunca mais voltei àquele shopping.

por Vanessa Marques | alguém!