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A morte redentoraSexta, 2 de Dezembro de 2005* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa O carro tinha explosivos suficientes para mandar um quarteirão inteiro pelos ares. Ele dirigia a caminho do hotel. Estava atordoado. O fluxo de sua mente seguia um ritmo doentio. Não tinha pensamentos contínuos, apenas imagens entrecortadas e lembranças distorcidas. Sentia aquilo que convencionou-se chamar de nó na garganta. Em alguns minutos iria morrer, levando centenas de pessoas consigo.Mal via as ruas. Esteve próximo de bater o carro por duas vezes. Precisava se concentrar. Decidiu colocar uma música, tinha esse direito, seria a última da sua vida. Abriu o porta-luvas para pegar uma fita. É incrível como uma pequeno detalhe, como esse momento de distração, pode mudar inteiramente o destino. Apenas dois segundos, tempo que nosso amigo deixou de prestar atenção no trânsito, foram suficientes para que ele não enxergasse um velhinho que atravessava a rua e o atropelasse. Na hora, decidiu fugir. Era óbvio que era a melhor escolha. Mas então, uma culpa enorme apertou o seu peito. É difícil explicar por que um homem que está prestes a assassinar dezenas de pessoas sente uma repentina compaixão por um ser humano a que acaba de fazer mal. Talvez o motivo fosse que especificamente esse indivíduo não estava nos planos. O que importa é que ele manobrou o carro e voltou para socorrer o atropelado. O ancião estava bem machucado, havia muito sangue e os curiosos se aglomeravam à sua volta. Sem pensar muito, o terrorista em potencial parou o carro, desceu, passou entre as pessoas, pegou o velho do chão e o colocou no banco traseiro do veículo. Nem chegou a ouvir os insultos dirigidos a ele enquanto dava partida e corria à procura do hospital mais próximo. Apesar dos ferimentos, o senhor idoso começou a falar. – Obrigado por voltar para me socorrer, mas acho que não vai me adiantar. Sinto que não duro muito. – Não diga isso. Vamos chegar a um hospital. Não sei o que aconteceu, senhor, não queria ter atropelado você. – Eu sei que não filho, você não me parece o tipo de pessoa que deliberadamente faria mal a alguém. – Eu não tenho tanta certeza, se o senhor soubesse para eu estava indo. Mas não houve resposta. O velhinho já não respirava mais. O homem dirigiu por mais alguns minutos, até que passou por uma praça. Decidiu parar. Desceu do carro, sentou-se num banco e acendeu um cigarro. Só neste momento percebeu como o dia estava claro. As pessoas passavam, algumas sozinhas, outras acompanhadas e conversando. Sentia-se triste pelo senhor que acabara de matar. Compreendeu, então, que não queria tirar a vida de mais ninguém. Levantou-se e foi embora. Procuraria uma vida diferente, por ruim que fosse. Deixou toda a vingança, a maldade e o ódio dentro daquele carro, jazendo junto aos explosivos e ao corpo do velho que, sem saber, salvou 137 pessoas, sem contar os feridos.
inventado por:
Robinson Melgar | Oi. Fala comigo
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