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A Incrível História da Invenção da Gasolina

Sexta, 8 de Outubro de 2004

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Estamos em meados do século XVIII e o mundo atravessa um terrível período de marasmo. Uma tartaruga manca aposta corrida com a evolução tecnológica e científica da humanidade. Existe um clima de descontentamento geral pairando pelo ar, afinal de contas todos já sabem que a televisão será inventada apenas muitos anos depois, e o cinema pornô, então, nem se fala. Ninguém agüenta mais frequentar rinhas de galo e corridas de saco, as únicas diversões além do tradicional sexo com a patroa. A vida é dura para quem deu o azar de cair justamente nesta divisão da linha do tempo.

Em meio à efervescência do campeonato estadual de amarelinha com um ovo cru dentro da boca, nascia o homem que seria o grande divisor de águas da humanidade. Henry Jomel Gasolina sentiu pela primeira vez o solo do Alabama numa fria manhã de junho. E sentiu o chão literalmente, já que sua mãe estava distraída matando palavras cruzadas quando o pequeno veio ao mundo. Desde os primeiros passos, Gasolina mostrava-se uma criança diferente – mas não o suficiente para chamar a atenção de seus pais, que continuavam com um olho nas competições regionais e outro na plantação de nabos.

O pequeno infante criou-se sozinho, vagando pelo rancho de sua família. Vez ou outra, quando os pais saíam para bailes de polka, Gasolina atacava o tonel de scoth do pai. Para quem não conhece a história milenar do álcool, um pequeno apêndice: naquela época, os scoths eram produzidos em barris caseiros de cedro. O sabor do uísque era bastante semelhante ao da Catuaba Selvagem que conhecemos hoje. Mas voltemos aos anos pueris de Gasolina. A verdade é que o menino era chegado numa birita, ainda que fosse aquela porcaria destilada que seu pai produzia em casa.

Uma das estranhas manias daquela criança era cavar buracos próximos às hortas de sua mãe e enterrar tudo o que encontrava pela frente: camas, cadeiras, cachimbos e até uma geladeira que apareceu no sótão de sua casa e ninguém descobriu para quê servia. Às vezes as coisas se perdem no tempo, é até comum. Outro dia encontrei dentro do meu guarda-roupas um daqueles cavalinhos que participavam da Bozo Corrida. Mas enfim, retornemos à história. O fato é que certa vez, depois de uma crise de gastrite que durou três semanas por conta de uma bebedeira, Gasolina decidiu enterrar a cachaça caseira de seu pai. “Isto é um veneno, não pode permanecer entre nós”, pensou a criatura. E eis que, justamente quando cavava o solo de maneira voraz, jorrou sobre seu corpo um líquido preto e denso que fedia como o diabo.

“Talvez seja calda de chocolate... Ou então é o tal do petróleo que a Bíblia cita no Apocalipse”, constatou o esperto e antenado garoto. Sem saber o que fazer com aquela gosma, Gasolina decidiu colocar um pouco numa panela para esquentar. Aproveitou para adicionar também uns pedaços de cana, porque odiava chocolate meio amargo. Depois de horas e horas mexendo a mistura, eis que o caldo desandou para um líquido amarelado. “Droga!”, exclamou, “Virou aquela cachaça ruim do meu pai! Que perseguição!”. Mas ele estava enganado. Quando jogou a poção dentro de um barril vazio, o mesmo virou um foguete e saiu voando pelos arredores do rancho. Deu um pouco ao jumento para beber, e o bicho saiu galopando como um cavalo campeão. Assustado com tantos efeitos, ainda assim o moleque decidiu experimentar o líquido. E eis que, duas semanas depois, ele venceu a maratona de Nova York, batendo até mesmo em meia dúzia de quenianos tidos como favoritos.

Em pouco o tempo, o mundo já conhecia a água amarela com o nome de Gasolina. Uma gasolina meio impura, diga-se de passagem, afinal Henry Jomel era chegado num metanol. Mas ainda que batizada, podemos dizer que ali nasceu o combustível que move o nosso mundo de hoje. Outro Henry, o Ford, decidiu até inventar um retângulo com rodas para poder utilizar a mistura inventada pelo amigo do Alabama. Mas aí já é outra história.



por Vanessa Marques | 5 alguéns