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A Horta do Senhor Haggen Benz

Segunda, 28 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Seu Juvenal era um senhor tranqüilo. Quem via o simpático velhinho arando a pequena horta do quintal não desconfiava de seu passado sombrio. Ele fora carrasco nazista na década de 40, a mando do Führer. Juvenal era seu nome falso desde que desembarcou em terras brasileiras, lá pelos idos da década de 50. Deixou o passado para trás e também o nome de batismo, algo parecido com Joseph Haggen Benz.

É certo que carrasco e terrorista são coisas bem diferentes, mas as duas profissões têm lá sua correlação. Talvez exatamente por isso seu Juvenal estivesse pagando tão caro pelas atrocidades de seu passado. E o pior: a vida lhe foi tão traiçoeira que jogou em suas mãos um carnê, onde pagava mensalmente seus pecados em forma de fogão e geladeira adquiridos no crediário.

Talvez você não esteja entendendo nada, prezado leitor, e realmente esta história é um belo de um enrosco para ser explicada em poucos parágrafos. A questão é que seu Juvenal, o velho pacato, estava sendo vítima de outros terroristas: seus filhos. Sabe-se lá se caráter é uma coisa que compõe o sangue, mas o fato é que as crias de seu Juvenal eram umas belas biscas. Poderiam muito bem estar servindo ao Führer, se a Alemanha nazista ainda existisse. Mas não. Estavam morando em Birigui mesmo, às custas do pai idoso. E faziam um terrível joguete para alimentar os sonhos do velho.

Este joguete consistia em uma fórmula simples e cruel: em cada aniversário do pai, davam-lhe em reais a quantia de anos que estava completando. Aos setenta anos, ganhou setenta reais. Aos setenta e cinco, mais setenta e cinco reais. E assim por diante. Desta forma, o ex-carrasco sonhava todas as noites com o dia em que completaria trezentos anos, e assim poderia pagar à vista um jogo completo de bocha, com tacos, joelheiras e tudo.

Mas este dia não chegava nunca, e seu Juvenal continuava levando uma vida à prestação. Descobria um santo para cobrir outro, como reza o dito popular. Mas como o caro senhor tinha raízes muito bem fincadas no horror da guerra, certo dia toda sua ira veio à tona. Em um determinado Natal, sua nora presenteou-lhe com uma pequena viola de madeira. O velho, que não era bobo nem nada, notou que já haviam lhe dado aquele mesmo instrumento em um aniversário anos antes. Era mutreta: entregaram a viola, deixaram que ele tocasse um pouco, deram sumiço nela e agora lá estava a pequena de volta. Revoltou-se. Revirou os armários do quarto e voltou para a sala com um cutelo em mãos e ódio nos olhos. Usou aquela arma de destruição em massa para destrinchar um pedaço do pernil que descansava sobre a mesa e saiu em direção ao quintal mordendo um pedaço da carne e balbuciando alguma coisa.

Não era mais o mesmo dos velhos tempos. Teria mesmo que segurar as pontas para viver até os trezentos anos e adquirir o tão sonhado jogo profissional de bocha.

por Vanessa Marques | alguém?