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A descoberta

Segunda, 17 de Janeiro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Nunca soube direito o que era hermafrodita. Parece que a minhoca é hermafrodita. Lembrava isso da escola. Ou alguém havia contado. Não fazia diferença. Afinal, não sabia o que era e nem se importava com aquilo.

Mas veio aquela novela. Houve uma novela com um hermafrodita. Ou seria uma hermafrodita? Ele nunca soube dizer exatamente. Mas aquela novela o deixou curioso. Aliás, ali começou a ver novelas.

Teve curiosidade em acompanhar a história daquela hermafrodita. Ou daquele. Ainda não sabia como se referir direito. Viu a novela até o fim, só por causa daquela personagem. Mas passou a ficar preocupado.

Era um mulherengo convicto. Gostava de sair, conhecer novas mulheres, investir em novas conquistas. Mas estava mesmo tenso. E se for uma hermafrodita. Ou um hermafrodita. Não saberia nem como chamar. E não queria um. Ou uma.

Depois da novela teve alguns relacionamentos um pouco mais longos. Coisa de dois ou três meses. Mas sempre com aquela preocupação. E se for um, ou uma? Aquela tensão acabou atrapalhando e, mesmo quando olhava e dizia ‘100% mulher’, não conseguia se recuperar.

Sua vida sexual estava desmoronando. Até conhecer a pessoa certa. Saíram uma vez e na mesma noite foram para um motel. Ela era grande, forte e muito produzida. Mas novamente ele começou a ficar nervoso.

Mas desta vez suas preocupações eram válidas. Quando ela ficou pelada ele pôde comprovar. ‘Você é um, ou uma hermafrodita?’, perguntou assustado, apontando para o pênis de sua companheira. ‘Não querido, sou um traveco mesmo’.

Largou o emprego, vendeu seu apartamento, juntou economias e montou um pequeno restaurante numa praia do nordeste. Seu novo amor não trabalha. Ele não quer. Volta para casa ansioso por encontrá-la. Ou encontrá-lo. Nunca soube mesmo...

bibibi e bóbóbó por: Xandão | Fala aí meu...