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A Decência e a DecadênciaSegunda, 1 de Novembro de 2004* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa Todo ano era o mesmo martírio: quando o dia 30 de outubro se aproximava, Rosa dedicava-se exclusivamente à preparação física e psicológica para o baile das bruxas do tradicionalíssimo colégio Santa Emernegilda, onde havia estudado nos tenros anos de sua juventude. Tratava-se, na verdade, de uma festa organizada por ex-alunas que encontraram na data uma desculpa para reunir as amigas de outros tempos e matar as saudades. Matar as saudades? Não exatamente. Na verdade, o baile era apenas uma bela oportunidade para as trintonas exibirem seus maridos endinheirados e seus sapatos comprados em Paris, além de falarem aos quatro ventos sobre seus cargos de alto escalão e as viagens de férias passadas em Las Vegas. Com Rosa não era diferente. Ela falava sobre jóias magníficas, carros esportivos e bebidas finas, mas... era tudo uma farsa.Joelson, seu marido, era quem pagava o pato. Casaram-se muito cedo, logo que Rosa concluiu o ensino médio. Ambos tiveram que interromper os estudos por falta de dinheiro e sequer colocaram os pés dentro de uma faculdade. Comiam o pão que o diabo amassou com o salário de auxiliar de escritório do marido. Rosa virou dona de casa, já que tiveram três filhos ainda nos primeiros anos de matrimônio. Moravam de aluguel e andavam de ônibus. Os filhos, todos em escola pública, nunca haviam visto o mar. Apesar de tudo, a mãe de família gastava os tubos anualmente para comprar uma belíssima fantasia de halloween. Chegou a enrolar-se em financiamentos inescrupulosos e penhorar as alianças de seu próprio casamento, tudo em prol das aparecências. E assim foi também em 2003, o ano fatídico. No dia marcado, Rosa não cumpriu suas tarefas ordinárias. Não levou as crianças ao colégio, não preparou as refeições e não ligou o rádio para ouvir as fofocas televisivas. Trancafiou-se no banheiro e passou o dia produzindo sua minuciosa maquiagem, além de fazer uma limpeza geral como há muito não se via. Na hora marcada, chamou o táxi e tirou de baixo do colchão o restinho de suas economias, calculadas para pagar apenas o trajeto até o clube. Deslumbrante, fechou as crianças dentro de casa e saiu pelo quintal escuro e esburacado, tentando equilibrar-se sobre o salto 15 recém-comprado. No meio da penumbra, sentiu uma mão agarrar sua cintura. Gritou. Assustada, viu a luz da lua refletir o rosto daquele que lhe tomara: era Joelson, trajando uma fantasia de Drácula. - Que susto, Joelson! - esbravejou Rosa, com certo alívio - Você não vai comigo, não! Eu já disse que meu marido está na Nova Zelândia, em viagem de negócios! Ele não disse nada. Amordaçou a mulher e levou-a até um terreno baldio, onde pôde entorpecê-la com éter num ritual tão calmo quanto sádico. Levou-a desacordada até o terminal rodoviário e colocou-a num ônibus rumo ao Paraguai, com o consentimento do motorista que havia recebido uma pequena recompensa pelo serviço. Antes de ir embora, ainda fantasiado, exclamou em alto e bom som: - Feliz dia das bruxas a todos. Voltou para casa, beijou os filhos e dormiu tranqüilamente, como jamais havia dormido. Jamais soube novamente do paradeiro da mulher.
por
Vanessa Marques | alguém?
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