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A Comida, a Política e a História do Mundo

Segunda, 24 de Janeiro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Injeção intravenosa

Minha primeira imersão pela culinária internacional data do tempo em que Jesus repartia pão e transformava água em vinho. Pão, aliás, deve ter sido a primeira invenção da culinária italiana. E pão italiano, quem diria, é uma iguaria com uma casca tão dura quanto sola de pé de pedreiro. Mas pedreiro, no fim das contas, gosta mesmo é de um bom prato de arroz, feijão e carne. Até onde estudei sobre a gastronomia de outros países, essa combinação simplória não tem nada de internacional. A não ser que levemos em conta que o Paraguai é país, e lá eu soube que eles comem até carne de morto político, por falta de bons rebanhos.

Mas quando falo em morto político, refiro-me única e exclusivamente aos pobres brasileiros que foram perseguidos pela ditadura durante duros anos. Naquela época, ninguém falava de comida chinesa em caixinhas de papelão, por exemplo. Foi com a chegada das primeiras vans de cachorro-quente que o militarismo veio abaixo. Ninguém esperava que duas salsichas cobertas com purê e batata palha pudessem ter tanta força política. O proletariado saiu às ruas empunhando faixas e segurando bandeiras. Sentiam-se libertos por poder adquirir aquela refeição tão boa e barata em qualquer canto da cidade, fosse diante do Palácio do Planalto ou em frente ao Pacaembu em dia de clássico.

Alguns puristas acham que a comida chinesa teria feito o mesmo estardalhaço no país se tivesse sido esperta o suficiente para chegar primeiro. Acabou colocando os pés na América do Sul apenas no começo da década de 90, quando a democracia já estava instaurada. Dizem que Fernando Collor de Melo ofereceu luxuosos jantares na Casa da Dinda à base de comida entregue por motoboys. Foi exatamente nesta época que inventaram o estrogonofe em cápsulas, que mais tarde veio a se chamar comida de astronauta. Alguns estudiosos dizem que o insucesso de tal empreitada deu-se por conta de algumas falhas primárias na produção: instalaram as tais máquinas alimentícias dentro de uma indústria de brinquedos, pois diganosticaram certa semelhança no produto final. Algumas pessoas tiveram de ser hospitalizadas quando as cápsulas estouraram em seus estômagos e desvendaram enormes bonecos de espuma que resistiram bravamente ao suco gástrico.

O caso das cápsulas só não foi um escândalo porque um árabe chamando Crepúsculo Celestino usou toda sua fortuna para encobrir a história. Em troca, recebeu apoio da NASA para criar o quibe de botequim, também conhecido como coxinha necrosada. O pequeno quitute alastrou-se rapidamente pelos quatro cantos do mundo e ganhou o paladar do povo. Hoje, ao lado do cachorro quente da democracia, pode ser considerado o maior representante do assalariado perante o poder governamental.

por Vanessa Marques | 2 alguéns