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Um breve relato de viagem
Um breve relato de viagem
Terça, 12 de Setembro de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Genericos
* Por Paula Rodrigues
Ruídos. Dor de cabeça. Mais ruídos.
Ruivão abriu um olho de cada vez e virou a cabeça na direção do barulho. Tudo girou a sua volta e o que lhe pareceu mais sensato foi levar a mão à testa para tentar fazer com que aquilo literalmente parasse.
Não lembrava onde estava. Com o mínimo de movimentos, olhou uma mancha de umidade no teto, que estava mais perto do que deveria. Ruivão dormira num beliche, na cama de cima. E sabe-se lá como chegou ali.
Virou o corpo de lado e bitucas de cigarro caíram da sua camiseta. Seu pêlo estava intacto, apesar da irresponsabilidade.
Os ruídos voltaram. Ãhnrg urrrr hããã. Olhou pro beliche do outro lado do quarto e viu seu primo Chicão. Boca aberta, um braço caído pra fora do colchão, o outro segurando uma garrafa vazia de conhaque Presidente.
As coisas começaram a clarear para Ruivão. Lembrou que ele e o primo tinham se reencontrado depois de 10 anos e viajaram para comemorar. Mochila nas costas, pouco dinheiro no bolso, sem saber o que esperar... Queriam ir para Pasárgada desde criança, mas não sabiam o caminho... e a grana não daria para tanto.
Aquele quarto era de albergue. Era para ser um Albergue da Juventude em Copacabana, mas, na verdade, se tratava de um albergue no sentido mais cru da palavra. Idéia de Chicão. Poderiam gastar as economias com cigarro e bebidas. Pelo cheiro do quarto, o riscado deve ter sido esse.
Por que o Macaco gemia tanto? Estaria sonhando com os macacos toscos do Spectroman? Que o Bush invadiu o Brasil? Ou descobrira, finalmente, que a vovó Mafalda era homem?
Shhhhhhhhhhhhhhh. Alguém da cama de baixo tinha se manifestado. Ruivão tomou impulso e olhou pela beirada do colchão. No meio da penumbra, um semblante de mulher. "Pede pro seu amigo parar!", disse. "Tamo querendo dormir...". A moça se ajeitou e abraçou uma amiga. Talvez a noite não tivesse sido tão ruim! Uma puxada no lençol descobriu um pé peludo com esmalte vermelho e afastou essa hipótese.
Ãhnrg urrrr hããã. Talvez Chicão lembrasse de mais detalhes da noite.
Ruivão precisava de um banho. Tomou novo impulso para sentar na cama, mas exagerou na dose. Foi um vôo breve e inesquecível direto pro chão.
"O que você está fazendo aí?", perguntou Chicão.
"Caí".
"Tô vendo. Mas queria fazer o quê?"
"Tomar banho."
"Consegue levantar? Urgh..."
"Não."
"Então guenta aí que eu já te ajudo. Mas preciso usar o banheiro antes..."
Chicão pulou do beliche numa fração de segundos. Andou meio dobrado para o banheiro.
"Que que tá acontecendo, ô Macaco?"
"Churrasco grego."
"Carioca?"
"Jesus!" foi a última palavra antes da batida da porta.
Chicão fora amador. Tinha ficado muito tempo longe dele e precisava aprender muita coisa ainda. Todo mundo sabe que há somente dois lugares onde se deve apreciar a iguaria: na Grécia ou no Vale do Anhangabaú. Com suco grátis.
Não conseguiria registrar a onomatopéia que se seguiu. Por motivo de força maior. Chicão no banheiro. As moçoilas a dormir. Ruivão com dor nas costelas. Trilha sonora de viagem.
* Paula Rodrigues é jornalista e aventureira. Desde que comprou um celular, há um mês, sua vida virou um inferno. Badalação total. A agenda da moça consegue ser pior do que a de Alicinha Cavalcanti.
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