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Sem salário

Segunda, 18 de Setembro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

Por Juan Raglem*

Every writer is a frustrated actor
who recites his lines in the
hidden auditorium of his skull

Rod Serling

Escritores trabalham de graça; quase sempre foi assim. Alguns foram praticamente mendigos, como Henry Miller, outros passaram anos em cabides de emprego (Borges na biblioteca pública, mais lendo que classificando livros).

Escrever não é um trabalho. Não estou falando de escrever para jornais ou revistas, tampouco para bulas de remédio ou manuais de videocassete (para dar um tom retrô). Ainda não amadureceu o escritor que espera conquistar dinheiro, iates e mulheres com a sua arte.

Ser escritor é aceitar que sua que sua vida fatalmente será menor que sua escrita. É também entender que você pode ficar famosíssimo, mas cem anos depois de ter morrido. Eu, ao menos, penso assim.

Sou um observador. Escolhi como missão entender o que eu puder da vida, do mundo, da verdade, das pessoas – escolha o termo que mais lhe agradar. Assim tento me aproximar do sublime. Minha escrita aventura-se em manifestar esse mundo invisível, quase sempre sem sucesso. Mas continuo seguindo, tenho uma incurável vocação de artesão. Sou jovem e sei que falta muito tempo para que meu estilo chegue a ser a metade do que desejo.

Assim, não me surpreende que a trupe do Morfina persista escrevendo, sem ganhar nada, até sacrificando tempo e um pouquinho de dinheiro. Duvido que com isso eles obtenham notoriedade na mídia ou convites para fins de semana na Ilha de Caras. Não. A idéia é outra: participar de algo simplesmente por prazer, por amizade, por vontade de falar algo para o mundo (ou uma partícula do mundo) ou ainda por querer arrancar algumas gargalhadas, o que não é menos nobre. Essa é a impressão que tenho.

Espero estar certo.


* Juan Raglem trabalha com computadores, pensa que vive nos anos 70 e escreve para expiar seus pecados. Acha que a internet está destruindo, aos poucos, a palavra escrita, mas fez uma concessão ao Morfina.

    

inventado por: Robinson Melgar | Eba! 3 já me deram atenção