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São Paulo; porque mete-me medo!
São Paulo; porque mete-me medo!
Terça, 22 de Agosto de 2006
* Texto publicado originalmente na seção Genericos
Por Samoel Martins Bianeck*
I
Qual o teu segredo? Na baixada ou no penedo – quando noite ou cedo. Tens prédio e vinhedo, a velocidade eu excedo – cuidado é um torpedo. O gatilho sente o dedo; recorro no arvoredo - quieto em segredo. Levanto a mão e sedo; a tudo concedo – na língua o gosto azedo. São Paulo, que medo; meu Deus não sou brinquedo – para o rochedo escafedo.
II
Nem me diga; tanta gente parece formiga – eterna fadiga. São Paulo bendiga; deles encha a barriga – a bexiga. Não maldiga; gente que mendiga – a fome castiga. Milhões ela abriga; também desabriga, briga – há choro e cantiga. Gente que imigra, migra; nascida, desaparecida - lembrada e esquecida.
III
São Paulo do mundo inteiro; todo cheiro – do banheiro e bueiro. Da seca e do aguaceiro; que barreiro, pisei no atoleiro – quero um chuveiro. Olha o pistoleiro artilheiro; açougueiro faqueiro – o barbeiro bate no dianteiro. O baderneiro desordeiro; bilheteiro leiloeiro – solteiro ligeiro. O batuqueiro gaiteiro; aventureiro festeiro – violeiro e traiçoeiro.
IV
São Paulo viveiro; atrai o roqueiro o romeiro – padeiro e o pedreiro. Não tens mar mas tem veleiro; regateiro – mosqueteiro e marinheiro. Tem guerreiro; quadrilheiro – petroleiro e muito dinheiro. Exporta prisioneiro; embusteiro – o fuzileiro e o guerrilheiro. Sem roteiro e paradeiro; nada ordeiro é arteiro - eterno forasteiro.
V
São Paulo famoso “Sampa”; cedo levanta – teu hino se canta. A todos encanta; não dói a garganta – tua manhã encanta. A alegria é tanta; vou ao parque ver a anta – ela se espanta. De pé se agiganta; o sol faz uma manta – do lado a governanta. A mendiga sem janta a desencanta; grita sacrossanta – a irmã é santa.
VI
São Paulo nua na rua, um poema à rua – a rua que é tua; Muito se atua; muito se come e jejua – a coberta e nua. Na pele tua; marcas perpetua; mesmo que se usufrua – não há quem substitua. Gente que avança e recua; enche e evacua – fogem da falcatrua. O medo pontua, o barulho tumultua – minha pele nua tatua.
VII
São Paulo da dor, do amor – do suor e terror. Do homem trabalhador; pecador – acusador e cantor. Homem de cor; do calor sem valor – da maldição e louvor. Do perfume o fedor; da fralda e babador – do beijador e mordedor. Do musico que vai compor; do garoto batedor – do diretor ditador.
VIII
São Paulo da flor; do pastor enganador - do político traidor. Do funcionário servidor; usurpador – procurador sem pudor. Do reitor redentor; jovem sonhador sem amor – do ator criador. Do clima afogador, da esperança animador – dos sonhos arrasador. Tua noite é um terror, assustador sou jogador – o futuro animador.
IX
São Paulo não me amotina; velho lobo felino – olha a menina. Meto a buzina; tomo uma creolina – lustro a botina. Sou paulista tenho dez na disciplina; tudo combina – tomei a vacina. Tenho a tina, na rua e na colina nada obstina – o eixo não patina. São Paulo sem rotina; tudo se afina – rasgo a cortina
X
São Paulo do pais a matriz; tua força motriz - aqui sou aprendiz O que te fiz? Me escreve com giz; me banha com chafariz. Me cria cicatriz; força hostis – não foi o que eu quis. Teu futuro sem diretriz; tua grandeza nada bendiz – o bem não prediz. Crescestes sem raiz; São Paulo “Quo Vadis?” – me diz
* Samoel Martins Bianeck, 56, é analista de sistemas em Balneário Camboriu e poeta por prazer. Ou o contrário.
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