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Papai Trotsky

Segunda, 20 de Fevereiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por Felipe Tazzo*

Leon Trotsky nasceu em Ianovka, Ucrânia, e seu verdadeiro nome era Lev Davidovitch Bronstein, de origem judaica e de família abastada. Aos 16 anos iniciou sua participação política como social democrata, contra a autocracia czarista e dois anos depois foi preso e exilado na Sibéria.

Retornou à Rússia, onde os bolcheviques liderados por Lênin e Trotsky derrubam o governo provisório e proclamam o primeiro Estado Operário da História.

Trotsky foi responsável pela organização do exército vermelho, milícia formada principalmente por operários, que foi fundamental para a tomada do poder. O revolucionário comunista foi o segundo dirigente mais importante da Revolução Russa. Ao lado de Lênin, iniciou a construção daquilo que deveria ter sido o primeiro Estado socialista no mundo.

Com o falecimento de Lênin, Trotsky viu-se preso nas tramas excessivamente burocráticas do regime. Bebia muita vodka em seu escritório à noite para manter a alegria e a força para lutar. Sozinho e cercado de corrupção, desgostoso, exila-se na Lapônia, levando consigo todo o seu exército vermelho, disposto a não deixar morrer o fundamento do comunismo: a todos conforme sua necessidade, de todos conforme sua capacidade.

E assim o gigantesco exército vermelho marchou para o norte e dedicou-se ao novo meio de produção industrial proposto pelo regime. Levava consigo seu sonho, o uniforme do exercito vermelho, um grande saco vermelho com seus poucos pertences e uma garrafa de vodka siberiana.

Pela sua justa distribuição de renda dentro de suas fábricas e também nos vilarejos ao redor, Leon Trotsky, já em idade avançada, ficou conhecido como um generoso velhinho que distribuía pelas terras geladas da Lapônia dinheiro para os adultos, que trabalhavam para ele, e brinquedos para as crianças. E todos os operários do exército vermelho trabalhavam alegres, extraindo da produção tudo o que precisavam para sobreviver naquelas terras geladas, pois eram os donos da produção.

Finalmente em paz com a realização do seu sonho, Trotsky dedicou-se ao bem e à distribuição das riquezas acumuladas pela fábrica. Gordo, trajando seu casaco vermelho e com a cabeça cheia de vodka vagabunda, marcava a neve com suas pesadas botas pretas e parava de casa e casa entregando os mimos aos aldeões.

Essa farta distribuição, no entanto, seria o começo de sua ruína, pois as dívidas não deixavam de crescer.

Logo, a forma como era venerado pelas crianças (que corriam ao seu encontro, chamando-o de papai) virou uma fábula com contornos místicos. Alguns clamavam que Papai Trotsky era um santo. Outros diziam que era um elfo mágico. Alguns diziam até que o corpulento senhor trajando vermelho voava pelos telhados das casas e descia pelas chaminés.

Endividado, cercado pela indesejada fama e toda uma aura de poder, Papai Leon foi logo abordado por multinacionais interessadas em utilizar sua proeminente barriga e as rosadas maçãs do rosto. Perseguido pelos credores, sofrendo com os rigores do inverno na Lapônia e meio zonzo da ressaca de uma vodka produzida com caule de pinheiros, Papai Leon confundiu até o próprio nome ao assinar o contrato de uma campanha publicitária gigante com a Coca-Cola.

Todo final de ano, o rosto sorridente de bom velhinho estampado na contra capa da National Geographic salvava a linha de produção na Lapônia, mas Trotsky tornaria-se, eternamente, um dos maiores ícones do capitalismo e do consumismo desenfreado.


* Felipe Tazzo está contribuindo com o Morfina pela segunda vez, mas ainda não se acostumou com a idéia de escrever seu pequeno perfil em terceira pessoa. Sendo assim, ele pede apenas que você dê uma passadinha pelo site dele. Agora.



por Vanessa Marques | 6 alguéns