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O tema é suruba: sinta-se à vontade

Segunda, 30 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por Fabiana Bergamin*

Quando recebi o convite para escrever este texto para o Morfina, no e-mail constava não somente o tema - suruba - mas também o adjetivo “fácil”, que embute a idéia “vai ser bico escrever sobre isso”, afinal de contas, quem nunca se envolveu uma boa suruba que atire a primeira pedra.

Ops... Pensando bem, eu nunca me envolvi em uma suruba. E, observando bem ao redor, não conheço ninguém que pratique o esporte. Sejamos sinceros, alguém aqui já praticou sexo com várias pessoas ao mesmo tempo? Pegação desvairada de balada, alimentada por álcool e entorpecentes, não vale. Por mais que termine em sexo, se a soma dos corpos não ultrapassa o número dois, não pode ser caracterizado como suruba.

Em mesas de bar este tema é recorrente, e a ladaínha é sempre a mesma: "um amigo meu me contou que...", "vi um filme assim, assado..." e fatos reais, que é o que a gente quer e precisa, nada. Provavelmente suruba é apenas mais uma lenda urbana, porque, pelas minhas pesquisas, é mais provável atravessar o portal que liga São Tomé das Letras a Machu Picchu do que encontrar um praticante desta modalidade sexual.

Fiquei matutando sobre o que poderia escrever, já que o tema, antes dito como “fácil”, passou a níveis inimagináveis de abstração. Quando eu perdia as esperanças, uma luz se acendeu ao final do túnel.

Um amigo, que não vejo há um bom tempo, ligou semana passada e fez aquelas perguntas-padrão que antecedem qualquer conversa com um pouco de conteúdo: “E aí, como você está?”, “O que está fazendo?”, “Que saudades” , e, depois de dois ou três minutos, lançou o convite para sairmos numa noite no meio da semana. Respondi que sim e questionei se ele tinha algum lugar em mente, eis que ouço, assustada: “Que tal irmos ao xixixixiesh?”. Eu respondi “O quê? A ligação ficou ruim, não entendi. Aonde mesmo iremos?”. Ele falou novamente “No xixixiesh.”. E completou “Dizem que lá é divertido, acho que você vai gostar”.

Fiquei pasma. Será que o Marcão, logo o Marcão, estaria me propondo ir ao Marrakesh, a casa de swing mais famosa de São Paulo? Não era possível, que mudança aconteceu àquele homem? E disse na lata, sem enrolação ou rodeios. Confesso ter ficado reticente nos primeiros 30 segundos seguintes ao convite, mas parecia ser a minha única oportunidade para descobrir o que é de fato uma suruba. Minha veia investigativa falou mais alto – dentre outras coisas que também se manifestaram no meu corpinho, mas que não vêm ao caso –, e aceitei o convite.

No dia e hora combinados, ele passou em minha casa para irmos à tão famosa casa de troca de casais. Durante o caminho atualizamos um ao outro sobre as últimas fofocas de nossa antiga turma e outras amenidades. Quando paramos à porta, estava tão nervosa que sequer prestei atenção ao letreiro do lugar. Não enxergava um palmo diante do nariz.

Decidi impressionar logo na entrada. Ele tinha sido audacioso ao fazer um convite daqueles em menos de três minutos de conversa. Por minha vez, quis mostrar que também era uma mulher moderna e provocativa: mal entrei e sapequei um beijo no pescoço Marcão, levantei meu vestido até a cintura e tentei abrir a braguilha do senhor que estava passando ao meu lado. Aproveitei para acenar para uma senhora que estava sentada em uma das mesas, para que ela também entrasse na nossa brincadeira.

Foi quando vi um homem metido em trajes indianos vindo em nossa direção: “Os senhores têm reserva?”.

Parei tudo e olhei ao redor. Para meu espanto, vi senhores, famílias e casais jantando calmamente pratos feitos no forno de Tandoor enquanto tomavam suco de rosas. Foi então que vi o letreiro sobre o elefante gigante que estava exatamente na minha frente “Restaurante Ganesh, típico indiano”.

Dei meia volta, peguei um táxi e pedi pro motorista passar no primeiro Mc Donald’s que encontrasse pelo caminho. Algo me diz que nunca mais verei o Marcão. Ou então, na pior das hipóteses, a gente vai se encontrar muito antes do que eu imagino.


*Fabiana Bergamin mal sabe o que é a internet, mas interessa-se bastante por experiências novas. Por conta disso, aceitou o convite da redação para escrever para este site literário metido a underground e abdicou de pelo menos quarenta minutos de sua atribulada vida de executiva para dar as caras por aqui. Se quiser escrever para ela, clique aqui.



por Vanessa Marques | 26 alguéns