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O Homem que virou Marte

Segunda, 29 de Agosto de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por .Hazel.*

Quando algumas manchas começaram a surgir na pele, pensou que fosse alergia. Não coçavam, eram vermelhas; placas longas e que se reuniam em torno do corpo. Sentia-se mais quente, as orelhas vermelhas, o dia-a-dia todo rubro.

Teve receio, medo, pavor, pânico e, por fim, paúra paranóica. Intoxicação? Crise alérgica? Rubéola? Sífilis? AIDS? Picada de mosquito?

Nada resolvia, nada respondia. Nenhum sintoma conclusivo ou interessante. Fez exames, mas nenhuma maravilha tecnológica dos diagnósticos laboratoriais foi capaz de responder o que é aquela coisa que tomou seu corpo. As células apresentavam danças multiformes no plasma, cada dia mais rubro. “É vírus”, tentaram consolar-lhe. Em vão, porque um vírus pode causar tanto estrago quanto um furacão. Espanta-me que não possamos deduzir do imposto de renda a quantidade de vírus a que estamos expostos.

Falou com amigos, parentes e com o pessoal da academia. Apelidaram-lhe de “pimentão”, “camarão”, “espoleta”. Apenas uma tensão meio disfarçada de ombro amigo acompanhou o ritmo rubro de seu novo cotidiano. Os parentes ficaram preocupados, mas acostumaram-se, ao final de três semanas, com a idéia de que estava se tornando habitué das fotos de satélite.

Em uma noite quente de janeiro, após preencher um caderno inteiro de palavras cruzadas, pensou ter visto luzes cruzarem o céu escondido do local onde mora. Luzes ondulantes, tão multiformes quanto a dança molecular a que vinha sendo submetido. Ondularam, espiralaram e, após um enorme clarão, a campainha tocou.

Chegou à sala e, para seu espanto, sua mãe abria a porta para receber meia-dúzia de pequeninos homens verdes. Adentraram sua casa, cumprimentaram sua mãe e perguntaram se tinha cerveja.

- O que são vocês? – perguntou, uma oitava acima do normal, dado o espanto.
- Viemos buscá-lo. Esperamos que as férias tenham sido agradáveis – respondeu um deles.
- Férias? Buscar?
- Sim, precisamos que volte.
- Para onde? O que vocês querem de mim?

Entreolharam-se e cochicharam entre si.

- Choque de interface protoconsciente. Alguma falha de cito-circuito.
- Sim, Wygginsaztelaiker!
- Tudo bem, a interface desliga quando restaurarmos sua forma original.
- Interface? Forma original? – indagou, perdendo o que supunha ser o contato com a realidade.
- Olha, eu sei que você acha que tem mais o que fazer, mas tem gente precisando voltar para casa. O congestionamento ficará insuportável.
- Ligue o centro de gravidade dele, logo! – berrou um deles da cozinha.
- Não podemos ou tiraremos este planeta de sua órbita. Além do colapso iminente e do trabalhão para arrumar, descumpriria as normas do Sindicato Animista de Planetas Congregados no Sistema Solar – respondeu Wygginsaztelaiker, plácido como um dia de domingo.
- Vamos, vamos, não temos mais tempo.
- Eu não vou! Não sei quem são vocês!
- Alguém pode apagá-lo, por favor?!
- E minha mãe, minha família, meus amigos?
- O contrato expirou. Fazer o quê?! – respondeu sua mãe.
- Contrato? Mas... eu... eu estou doente!
- Deixa disso. Você está ótimo! Quase como novo!
- Sim, essas férias fizeram muito bem a você!
- O quê?!
- Vamos, suba.
- Vocês não podem me tratar assim! Sou um ser consciente! Tenho vontade e... – e mais nada, porque fora atingido por um sono absurdo, lancinante e revelador.

Levaram-no em uma maca flutuante pela rampa de energia e enfiaram-lhe tubos pela boca e ânus. Retiraram órgãos, vísceras, sangue, pele e deixaram-lhe uma massa vermelha ao redor de um círculo de fogo brando. Podia ouvi-los, mas não respondia. “Deve ser o efeito de algum sedativo”, pensou. “Vou morrer em breve e estou alucinando tudo isso”, dizia a si mesmo.

Seguiram-se diversos cliques e claques, até que a equipe se reuniu. Wygginsaztelaiker terminou seu cigarro e disse:

- Não conseguimos desligar a interface.
- E o que ocorrerá?
- Estamos para presenciar um milagre?
- Qual nada – Wygginsaztelaiker respondeu com sua parcimônia rotineira – isso daí implode em contato com o vácuo.

Abriram uma espécie de escotilha e lançaram-no em um ponto do espaço. Flutuou no vácuo como um corpo leve que bóia na piscina imensa de estrelas e energia. Seus pulmões não mais existiam, mas sentiu que havia uma respiração que lhe inflava. Dobrou, triplicou, giganteou e sentia-se em contato íntimo e pessoal com todas as ligações que lhe chegavam. Sentiu fluir em seu âmago quente energia que puxava e lançava-o em todas as direções, sentiu-se influenciando planetas, pessoas, estrelas, destinos, cálculos e fotos de telescópios. Torcia a luz, a massa e todos os desígnios da matéria. Comungou de ventre despido de carne com todo o universo que lhe aceitava de volta e inflavam-lhe leis psicofísicas, vida, rocha, água, gelo e muito de tudo que constitui a matéria escura. Ouvira as vozes do mundo ordenando a criação, a expansão, as constantes e os pontos relativos. Sentiu-se partícula e onda, gato vivo e morto, Ser e Não-Ser, Um e Tudo. Quando abriu os olhos, era novamente planeta.

Como nada é de todo ordenado, aquela espinha na bochecha direita não secou e virou uma papa primordial que deu origem a alguns organismos unicelulares. Enquanto a evolução não despertava de sua preguiça contumaz e algo saía andando dali, transformaram o local em atração turística e o equilíbrio se manteve até o dia em que o Sol de Quinta Grandeza se extinguiu. A bem da verdade, era sua vez de tirar férias.

*.Hazel. finge escrever, finge ler, finge ser professor de filosofia. Só é ele mesmo na Terra do Nunca.



por Vanessa Marques | alguém?