Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > O FUTURO DA HUMANIDADE

O FUTURO DA HUMANIDADE

Segunda, 3 de Outubro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por Nelson Moraes*

Quando a Vanessa me pautou com este assunto aí, óbvio que os insights mais, ahn, óbvios me ocorreram: por exemplo, Deus resolveu chamar jotacê num canto porque o rapaz já estava crescidinho e precisava decidir o que fazer da vida: “E aí, filhão, já resolveu o que vai ser quando crescer?” E o garoto, cheio de entusiasmo e endorfina: “Já! Vou salvar a Humanidade!” O velho: “Pfui. Humanidade? Isso não tem futuro. Já pensou em química industrial”?

OK. A tergiversação é o último refúgio dos velhacos. Te pautam, aí você ensaboa aqui, faz uma citação ali, desconversa lá e acaba cumprindo o número de laudas. Mas a Vanessa, provavelmente já me conhecendo, deixou claro que não havia limite de linhas ou laudas para o texto. Não tem saída. O Morfina me pegou de jeito. Vou ter que falar sobre o Futuro da Humanidade (ei, e se eu falasse do Condicional da Humanidade? A título de what if, eu começaria considerando se, na alvorada da Civilização, em vez de descobrir a roda o homem descobrisse o sal de frutas? Hoje os carros estariam andando sobre pneus quadrados mas em compensação a trepidação não daria enjôo e... Certo, certo, desculpem).

Bom, dizem que o Francis Fukuyama foi ao ponto. No caso, o ponto final, que ele impactualmente digitou quando decretou que a História tinha chegado ao fim. Os mais apressados viram nisso uma generalização derridiana (e naturalmente pensaram “Quer dizer que se a História acabou e nada mais vai acontecer, por que me preocupar com a duplicata que vence mês que vem?”), mas o próprio Fukuyama apressou-se em explicar que “ponto final uma vírgula!”, deixando claro (pelo menos foi o que eu entendi) que ele falava em processos históricos e sua rede de sucessões: feudalismo, mercantilismo, (tentativas de) socialismo, capitalismo e pronto. O modelo capitalista por si só se esgotava e não trazia o germe para outro processo histórico. Nada haveria de sucedê-lo (ainda bem – já pensou se depois do capitalismo viesse, sei lá, o cineclubismo, e todos nós fôssemos obrigados a passar dois ou três séculos vendo filmes do Abbas Kyarostami?).

Mas a sério, se precisamos contextualizar a coisa, eu falaria aqui do Futuro da Humanidade dentro da visão de finitude histórica pregada pelo Fukuyama. Ou seja, com o capitalismo sem descendentes, esticado ad infinitum, mas marcado atualmente pelo advento deste fenômeno que interliga milhões, bilhões de pessoas, promovendo numerosas ocasiões simultâneas de troca de idéias, além de acirrados leilões de sabres de luz... Como? Mm, sim, eu falava era do fenômeno “Star Wars” – mas tudo bem. Para não desperdiçarmos a linha de raciocínio que você provavelmente vinha seguindo, concentremo-nos na Internet.

Sem querer incorrer no originalíssimo e arrojadíssimo conceito de que “O futuro está na Internet”, acho que não há saída senão reiterá-lo. O que pega aqui é "quais serão as modalidades de Internet". Talvez ocorra o feudalismo internético (marcado pelos internautas antigões que até hoje não aprenderam que a pronúncia correta é CD Rôm), o mercantilismo internético (marcado pela colocação, em blogs, de banners de livrarias online e pelo não recebimento de um centavo sequer das transações, bah!), o socialismo internético (marcado pelo free software, pelo copyleft e pela Comuna da Paris Hilton – afinal todo mundo, indistintamente, viu o tal vídeo, pois não?) e, por fim, o capitalismo internético – que, num processo fukuyamamente dedutivo, será a última fase e jamais acabará: passaremos a eternidade dando download em filmes do Abbas Kyarostami.

Oh, céus.


*Nelson Moraes é publicitário, soi-disant escritor, mantém o blog “Ao Mirante, Nelson!” e pessoalmente nada tem contra o cinema iraniano. Nem a favor.

por Vanessa Marques | 6 alguéns