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O CORONEL OF LOVE

Segunda, 2 de Outubro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

Por Gilberto Amendola *

O coronel correu para o computador, digitou a senha do MSN (que, óbvio, era 111) e viu que ela estava online. Sem demora, mandou-lhe um emoticon de coração, seguido pelo cachorrinho com cara de abandono e uma mensagem: “Kd vc, amore?”. Coloquei nossas fotinhos no meu álbum do Orkut. Tiamuuuuuu D +++”.
Pois é. O coronel das 111 almas, o carniceiro da tranca, o fodão do ratatátátá, o espirra sangue do Carandiru, o Rambo da classe média, o deputado da linha dura, o... Isso mesmo gente, o tal coronel estava apaixonado.
Os amigos andavam preocupados. Desde que conheceu aquela mulher, ele tinha mudado completamente seus hábitos. Dizem as más línguas que andava comendo sushi, freqüentando o Belas Artes (ele teria amado “Amelie Poulain” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” – nesse último também teria chorado ao fim da sessão), assistindo a Sony e ouvindo Los Hermanos.
Alguém tinha que salvar o nosso Bira. Seus amigos de farda queriam o homem-gelo de volta. Alguém precisava tomar uma atitude... O fim da picada foi quando um outro oficial flagrou o coronel tomando um cafezinho na Fnac, lendo Mario Quintana e sublinhando versos para mandar (por e-mail, é claro) para sua amada.
“Viadagem”, disse o coro das polícias civis e militares.
“Vamos ter uma conversa séria com ele...”
Um comitê de machões fardados foi até o apartamento do coronel. Lá, antes de qualquer discussão, surpreenderam-se com o cheiro de incenso, um feng shui atrás da porta e com a novela do Manuel Carlos que rolava na TV...
Agora, Bira era um homem educado. Mais do que isso: há 2 semanas tinha começado intensas sessões de analises (Jung e Freud eram seus novos heróis) para superar o trauma de ter comandado um massacre.
Os homens do comitê argumentaram, fizeram discursos sobre o perigo do amor e sobre a esperteza das mulheres. Disseram até que a volta do velho coronel seria uma questão de Estado, uma necessidade em tempos de guerra contra o crime organizado.
De nada adiantou. Polidamente, Bira pediu para que eles se retirassem. “Preciso dormir cedo. Amanhã, vou andar no Ibirapuera com meu amor...”
O comitê dos machos saiu cabisbaixo. Porém, ao dobrarem a esquina, um ex-membro do esquadrão da morte e vereador por um desses partidos que me foge o nome, avisou que tinha a solução em suas mãos.
“Roubei o celular do coronel. Sei o que fazer...”
O ex-membro do esquadrão da morte procurou o telefone da tal mulher, que, é claro, estava gravado no aparelho.
“Como a gente manda mensagens nesse treco aqui?”.
Ninguém no comitê dos machos sabia como proceder. Eles tiveram que contar com a ajuda de uma ninfeta de 16 anos.
“Minha filha, faz esse favor pra gente. Manda uma mensagem de texto pra esse número aqui...”
“50 paus!”
“Fechado, minha filha”.
“Dá essa bagaça aqui”
“Toma”
“Escrevo o quê?”.
“Eu não te amo mais. Acabou”.
“Pó, maneiro. Pode deixar...”
Ao receber “Eu não te amo mais. Acabou”, a tal mulher entrou em pânico. Pegou uma velha arma de sua mãe e dirigiu até o apartamento do coronel. Chegando lá... Bem, o que aconteceu a partir daqui todo mundo já sabe.

*Gilberto Amendola é jornalista, já escreveu livros e ganhou chopes em bares de São Paulo.



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