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Nos tempos da Faculdade

Segunda, 9 de Janeiro de 2006

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

Anísio era garoto ainda quando entrou na faculdade, não queria perder tempo em ganhar o carro que lhe fora prometido pelo pai, caso conseguisse. Faltavam poucos dias para o início das aulas e ele mal conseguia se segurar de tanta ansiedade.

Sempre fora popular na escola. Filho de nordestinos que deram certo, ele não herdou dos pais a honestidade, nem o afinco para trabalhar. Não era lá muito bonito, porém sempre pôde ostentar objetos de desejo para os colegas, o que o deixava em posição confortável para fazer amigos interesseiros, que queriam freqüentar sua bela casa ou andar em sua Mobileta Caloi, lá pelos idos dos anos 80.

O pai o batizou com o nome do avô, coronel de umas terras no interior da Paraíba. Era um costume muito comum na época colocar nomes iguais nos filhos, já que as chances de “vingar” eram poucas, assim ele fora batizado como Anísio Blota Irmão, o que lhe causou uma série de transtornos ao longo da vida. Por diversas vezes estava na rua e alguém gritava “Aê, irmão!”, e nunca era com ele.

Finalmente as aulas começaram. A faculdade não era muito boa. Inclusive, além dessa finalidade, também funcionavam ali um shopping center, um lava-rápido e um centro de umbanda. Mas Anísio não queria perder tempo nessa vida estudando e os pais não teriam dificuldade em bancar tudo. Tratou de terminar com a namorada a menos de uma semana do sonho começar, afinal tinha certeza de que sua popularidade só iria aumentar, já que tinha carro e freqüentava a faculdade.

Na verdade, Anísio sempre teve vergonha de ser filho de nordestinos e de seus pais serem pessoas simples. Tanto que a escolha do curso não podia ser diferente: ele optou por estudar direito. Queria ser chamado de doutor e sonhava com o dia que poderia apresentar sua carteira da OAB no lugar de sua carteira de identidade, mesmo quando fosse passar um simples cheque. Aliás, Anísio ia além, pensava em, no futuro, depois que tivesse a carteira, somente usar cheques. Aí sempre pediriam a ele sua identidade.

Anísio sentou no fundo e logo tratou de se enturmar. Seus amigos: o fortão, o maconheiro que só se metia em encrenca, o surfista burro e as garotas saradas de cara feia. Comportavam-se como se ainda estivessem no colégio, principalmente Anísio. Fazia muita bagunça, não deixava as pessoas falarem e destratava todos que podia.

Depois de alguns meses, Anísio ficou triste ao constatar que ninguém gostava muito dele e que seus amigos eram desleais como ele. No ano seguinte, pensou em mudar de estratégia. Tinha um garoto nerd que sempre estava rodeado de meninas e os professores pareciam respeitá-lo muito.

Anísio mudou de lugar, começou a estudar (claro, na medida que seu QI permitia) e a ler grandes sucessos literários do Paulo Coelho, Zíbia Gasparetto (ditado pelo espírito Lucius) e Força Para Viver, para poder participar das conversas menos formais, já que nunca havia lido um único livro ao longo da vida. Por mais que se esforçasse para fazer comentários pertinentes, sempre falava idiotices e provocava gargalhadas no resto da sala. Uma vez se enganou quanto ao nome da famosa obra de Thomas Hobbes, o que acabou lhe rendendo o apelido de “Leviadão”.

Pensou até em desistir, mas era persistente e decidiu arrumar um estágio para tentar aprender um pouco mais. E assim foi.

Embora não fosse exigência do emprego, Anísio fazia questão de usar terno. Ele se sentia muito bem naquela beca, era incrível. No primeiro dia de trabalho o chefe lhe deu 65 fichas de processo e pediu que ele as trouxesse para o escritório. Estava um calor de 36 graus, mas Anísio ficou com o terno até o final do expediente, tanto que sua mãe lhe perguntou, no dia seguinte, onde ele havia tomado chuva, porque o terno estava encharcado. Lá pelo terceiro mês alguém o presenteou com um adesivo da OAB que dizia “sem advogado não se faz justiça”. Foi uma alegria. Colou no vidro traseiro do carro no mesmo dia.

Anísio já estava no segundo ano da faculdade. Agora usava terno sempre. Fez amigas calouras durante o trote e tudo já ia melhor. Até que um dia ele recebeu uma grave notícia: os estagiários do escritório iriam ganhar um uniforme formado por camisa pólo, calça de brim e um sapato confortável, quase esportivo. A idéia parecia ter vindo de um dos advogados donos do escritório que não gostava nem um pouco de Anísio e provavelmente inventou essa história só para desapontá-lo, já que percebia nos seus olhos a satisfação em usar terno, mesmo no calor sufocante de São Paulo. Porém, o chefe preferiu dizer que era para o maior conforto dos estagiários que trabalhavam mais que burros de carga e nem recebiam salário por isso.

E Anísio se lamentava profundamente porque justamente no dia anterior à determinação do escritório uma faxineira do fórum disse “desculpe, DOUTOR” ao encostar acidentalmente a vassoura em Anísio, fato que ele atribuía ao terno. Senão jamais teria sido chamado de tão nobre título. Além do mais também havia na rua onde morava uma senhora bem velhinha, totalmente gagá, que também o chamava assim. Não por graça, mas por respeito.

O uniforme veio e ele se sentia quase invisível com aquela roupa, mesmo depois de ter prendido o broche da OAB na lapela da camisa pólo. As meninas do primeiro ano nem pareciam mais dar bola e Anísio foi sendo tomado por uma grande tristeza. O doutor eliminou o homem. Ele se olhava no espelho e parecia não ver seu reflexo, era aterrorizante.

Os dias não passavam e Anísio não reagia mais. Ao final de três semanas ele descobriu como aliviar sua angústia. Chegava em casa vestia o terno, sentava-se em frente ao espelho e ficava se olhando durante uma ou duas horas, dizendo expressões em latim que ele não tinha idéia do que significavam, tipo “data vênia, excelência!” ou que nem eram em latim, mas que ele não tinha idéia do que significavam mesmo assim. Com esse artifício, Anísio pôde continuar seu estágio e concluir seu curso.

Formou-se. Porém não conseguiu passar no exame da OAB, mesmo depois de seis tentativas, o que lhe obrigou a viajar para o Acre e fazer a prova por lá. Casou-se com uma funcionária pública que o chifra freqüentemente com o policial militar que escolta os presos até as audiências.


Thais Melgar é conhecida por jogar futebol e pegar mais garotas que o irmão. Seu maior sonho: ficar o dia inteiro tocando violão, ser alimentada por pombas piolhentas e depois abduzida por uma nave pegando fogo, numa versão urbana de Elias. Passou 6 anos na faculdade conseguiu não se formar por problemas com a polícia. Porém após a mudança de nome, tudo corre bem.



inventado por: Robinson Melgar | Eba! 3 já me deram atenção