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Maracujá
Maracujá
Segunda, 5 de Setembro de 2005
* Texto publicado originalmente na seção Genericos
Por Guilherme Lamenha*
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Um
Antes mesmo de perceber que a blusa estava ao contrário, se sentia pelo avesso naquela primeira manhã sufocante de setembro. O quarto era pequeno, a cidade era pequena, a vida parecia estreitar-se cada vez mais. Quando se tem 16 anos o resumo da ópera é quase sempre assim: dramático e repleto de frases feitas e curtas. Vestia uma blusa ao contrário na manhã de setembro quando se tocou que dali a pouco era virada de década. Finalmente os anos 80... mas no que isso mudaria sua vida sem graça?
Entrou na cozinha com a blusa ao contrário pensando no fim do mundo, quando deu de cara com um barbudo estranho, tipo intruso mesmo, sentado à vontade na cadeira dela. Uma cadeira manca, desbotando a tinta verde que a mãe havia tentado para a mobília. Como estava pelo avesso não esboçou qualquer reação. Estar assim significava silêncios intermináveis com o mundo. Era seu código de alerta para que vivos e mortos se mantivessem distantes.
O tal barbudo era ensolarado, mesmo triste. Ria alto, e comia um maracujá enorme com açúcar, a polpa indefinida se espalhando sobre a mesa, também manca e desbotada como quase tudo na casa. Ouviu algo como: “ela cresceu” e mais adiante “não vai dar um abraço no tio?” Deu de ombros, voltou pro quarto, que nova confusão seria aquela?
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Outro
Há quase uma década ele não sentia aquele ar morno em setembro. Sua fuga não teve nada de espetacular, como gostava de lembrar o irmão. Foi colocado no porta-malas de um carro, atravessou a fronteira pelo sul e, via Chile, foi parar numa França abalada pela efervescência de 68. Em todos os sentidos. Era 1971 e sua barba crescia, sua vontade crescia, sua carência também. Estudou música, escreveu canções de amor e outras tantas de dor. Participou de festas antológicas, namorou mulheres lindas e outras apenas inteligentes.
Mas nunca mais falou em política. Não se articulava junto aos demais compatriotas, não inventava falsos testemunhos de tortura para tornar o exílio mais excitante. Da prisão só lembrava dos gritos. Ele havia saído inteiro por fora e quebrado por dentro. Ele não entendia muito bem o que havia acontecido. Ele era quase um menino. Ele não se sentia responsável pelo Brasil. Em Paris costumava comprar maracujá e, vez ou outra, lembrava do que tinha deixado para trás: uma pequena família desarticulada. Mãe judia inconformada com as atitudes do filho rebelde, irmão mais velho funcionário público, cunhada e sobrinha.
Agora, quase anos 80, voltava anistiado e angustiado. Mãe morta, irmão triste, cunhada conformada e uma sobrinha que parecia um zumbi, com aqueles olhos arregalados e uma falta de expressão que o assombrava. Na manhã de sua volta, tentou demonstrar alegria. Mas só encontrou dificuldade.
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Os dois
“Não tenho nada com isso nem vem falar/eu não consigo entender sua lógica...”, naquele momento não lembrava se a letra de Muito Romântico era do Roberto ou do Caetano. Mas isso pouco importa já que a música era linda. Fumava um baseado e viajava no LP que girava como sua cabeça. Ela entrou no quarto sorrateira, blusa de escola ao contrário. Mas já não estava pelo avesso. Havia aprendido mais sobre o tio naqueles três últimos dias. Estava gostando dele.
Chegou com um suculento maracujá de polpa amarelo-vivo, manchando sua boca. Chegou falando. E ele não entendia uma só palavra do que ela dizia, mas achou lindo seu tom de voz... e... “mas acontece que eu não posso me deixar/levar por um papo que já não deu”. Cantando, os males todos eram espantados para além dos muros daquele sobrado.
Depois daquela tarde conversavam sempre. Ele procurou mostrar que amor era uma coisa boa. Disse que ela se apaixonaria muito nessa vida, mas ele não. Falou como um mestre e ela fingiu compreender tudo. No fim da tarde, parada militar pela TV, ela roubou-lhe um beijo. Confuso e contraditório, aquele beijo.
Na manhã seguinte, olhou para a menina como se olha para uma flor bonita numa estufa e se despediu de novo. Seguiu viagem, escreveu um livro, voltou a fazer música. A meta era reencontrar a vida e o Brasil, que até podia estar desbotado, mas não pelo avesso. Sentiu, depois daquele beijo, que poderia criar e talvez, desse modo, se reconciliasse com o que corria por dentro.
Ela terminou o colégio no final do ano. Tentou se engajar na luta por liberdade nas universidades. Mas depois de um tempo achou tudo aquilo muito chato. No meio dos anos 80 foi morar com um guitarrista e fez experiências esotéricas na Amazônia. Estudou antropologia e tentou entender seu múltiplo país. Acabou colaborando como redatora num programa novo da TV Globo sobre jovens. Mais tarde iniciou uma série de documentários que mostrava a nova cara do Brasil.
Com o tempo, descobriu que sua pátria estava na sua cabeça e que, assim como ela, vez por outra também funcionava pelo avesso. Sua pátria estava na lembrança de um beijo roubado do tio barbudo que agora fazia trilha para cinema nos Estados Unidos. Estava nas fantasias que vez em quando brotavam quando ela comia um maracujá.
“Noutras palavras sou muito romântico...”
*Guilherme Lamenha é jornalista e vez por outra gosta de discutir política com os amigos. Mas, quando é convidado para escrever sobre patriotismo confunde alhos com bugalhos, e acaba cometendo inconfidências, como costuma fazer no seu blog, o “Perto do Coração Selvagem”.
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