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Livros, selos e vapor

Segunda, 26 de Setembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por Jayme Serva*

Marília entrou em casa esbaforida, bolsa aberta. Tinha sido assaltada pela pressa, molestada pela falta de jeito e trazia sinais exteriores disso. Entrou em casa assustada e não viu ninguém. Ouviu, então, um zum-zum-zum na cozinha. Foi até lá, pensando encontrar a mãe, mas nada, era apenas o poodle reclamando sua ida ao jardim.

Levou-o pensando como é que o pobrezinho agüentava tanto tempo segurando a bexiga e os intestinos e, mais ainda, como é que ninguém cuidava disso quando ela não estava em casa. A porta bateu e o poodle latiu, em guarda. Ela sempre se esquecia de fechar a porta da frente quando entrava, mesmo que não trouxesse as compras, ele sempre se assustava com o barulho.

Nenhum movimento mostrava que um jantar estava sendo preparado. A mãe devia estar na saleta lendo seu interminável Érico Veríssimo ou dormindo sobre o grosso volume, sonhando talvez com Bibiana e um fim mais piedoso para o Capitão Rodrigo Cambará. Parecia viver nos pampas, a gentil senhora. Gentil da porta para fora.
Nem tentou interromper a velha senhora. Qualquer que fosse seu afazer, ela não gostaria de parar e se assustaria ao ser chamada. O pai estava debruçado sobre a coleção de selos. Não a renovava há pelo menos vinte anos, mas gostava de manter os dois grossos albuns em ordem, ora tirando uma raridade daqui e passando para lá, ora lamentando o Olho-de-Boi que seu tio-avô havia vendido em um momento de aperto. Um Olho-de-Boi não devia servir para fazer caixa, seu valor era inestimável, tinha um século na família – a oração era sempre a mesma quando o papel-manteiga mostrava, translúcido, o lugar vazio do velho selo, antes habitante solitário da página principal da grossa coleção.

O velho parecia completamente absorto, Marília resolveu não interromper sua repetitiva fruição. Um banho seria restaurador e mataria o tempo necessário para que a casa se pusesse em ordem e fossem todos à mesa. Separaria depois a comida do poodle. Havia uma pilha de cartas para ler, mas deixaria isso para depois do jantar. Sugeria sempre ao pai que se valesse dos selos de tantas cartas recebidas pela família para atualizar a coleção, mas o velho parecia ter perdido a paciência há uns vinte anos.

Subiu as escadas e percebeu que uma saliência no carpete roto poderia provocar um acidente. Avisaria ao pai, que era resistente à idéia da idade que chegava, mas era um homem muito prático e que adorava consertar coisas. A mãe provavelmente esqueceria o problema até o dia em que se criasse um problema de verdade.
O poodle a seguiu até o banheiro. Ela não tinha nenhum sentimento de pudor ou constrangimento de se despir na frente do cãozinho, que se divertia com os respingos de água quente e o vapor profuso. Este era o melhor momento do dia, em que tudo sumia e ela podia se enxergar da pele para dentro. Demorou no banho, a ponto de o cãozinho silenciar entediado. Enxugou-se devagar com a toalha felpuda – daquelas que não se fazem mais como antigamente – antes de se vestir com o equilíbrio necessário entre conforto e solenidade.

Desceu devagar, refeita, o poodle atrás com os pelos úmidos. A transformação esperada de fato havia se dado: ouviu o tilintar da mesa sendo posta, o baque do grosso álbum de selos sendo fechado. O velho casal havia acordado para a rotina noturna, os selos e os Terra estavam temporariamente de lado, da cozinha vinham calores e aromas.

À mesa, dois lugares. Um deles, ocupado pelo velho, que olhava para nada. A outra cadeira já seria tomada pela velha senhora. Metódica, comentaria o tempo, se queixaria das dores de sempre e esperaria o muxoxo do marido. Isto feito, lembraria que Marília teria arrumado a mesa de outra forma e reclamaria do marido a destenção ao túmulo do cachorrinho. Afinal, ele é que tinha sugerido enterrá-lo ali, para ter ao menos uma lembrança mais próxima da presença da filha. O cãozinho, pobre, havia definhado junto com Marília e expirou apenas poucas horas depois da dona.

A rotina mantinha todos precariamente vivos.

*Jayme Serva escreve no blog Dito Assim Parece à Toa.



por Vanessa Marques | 7 alguéns