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LivreQuinta, 2 de Novembro de 2006* Texto publicado originalmente na seção Genericos * para Volnei Coimbra, Julia Cintra e Maitê Proença.No trigésimo sétimo dia, ele acordou. Ninguém soube explicar porque despertou ou o que lhe tirou do coma, fato é que saiu. Não reconhecia mais ninguém. Não lembrava do rosto de seus familiares. De seu emprego de analista de sistemas e - assim como todo mundo - sequer tinha idéia do que um analista de sistemas faz. Viu-se profundamente só e deprimido. Aqueles rostos todos lhe sorrindo, sem poder retribuir. Rostos estranhos que o conheciam. Não suportava mais receber visitas de pessoas lhe chamando de Roberto. Contando histórias com Roberto. Tinha uma esposa, Márcia. Não achava ruim dormir com aquela estranha. O sexo era bom. Era ótimo. Mas, ser chamado de pai por aquele adolescente o fazia sentar péssimo. O tempo, passava lentamente, mas se ia. Roberto já não queria mais sê-lo. Roberto não bastava-se. Aquela rotineira convivência com “estranhos conhecidos” passou a ser insuportável. Márcia o deixou a frente do televisor, com umas frutas na geladeira e com tantinho de baba no canto da boca. Tudo na normalidade. Mas ele estava decidido livrar-se de Roberto. Quando os estranhos voltaram ele não estava mais lá. Reviraram a casa, a vizinhança e não o encontraram. Na morgue, polícia e hospital também não estava. Ligaram a tevê para ver se noticiariam alguma coisa. A televisão estava sintonizada no canal de esportes. Último canal assistido por Roberto. Antes de trocarem para o canal de notícias puderam ouvir o anúncio de novo participante. Tal de Montgomere-Nice. O corpo era parecido, não dava para reconhecer o rosto embaixo da máscara, contudo não havia dúvida que o pijama era o de Roberto. Lutou como se a sua vida disso dependesse. Talvez dependesse. Puderam ver o brilho e a felicidade nos olhos. Ali lutava um homem livre. Perceberam que Roberto já não existia mais, logo, deixaram-no lá, onde quer que estivesse.
Rabiscado por
fezon | Comente e ganhe prêmios!
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