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Era tudo verdade!Terça, 2 de Maio de 2006* Texto publicado originalmente na seção Genericos *Por Felipe Tazzo Em certos dias, Jairo achava que Deus estava tirando um sarro de sua cara. Nos outros dias, ele tinha certeza. O dia em que o editor do suplemento de informática para o qual Jairo trabalhava trazia a pauta da semana era um dos dias da certeza. “Você tem que estar me zoando”, ele pensava. Os artigos que Jairo escrevia eram completamente descabidos, um mais esdrúxulo do que o outro. Não fossem as contas para pagar e o fantasma do desemprego que rondava, teria caído fora daquele empreguinho de merda há anos. A mais profunda certeza de que Deus estaria rolando de rir no céu agarrado ao próprio estômago veio quando o editor não trouxe nenhum papel, nenhuma fonte, nenhum lead, nada para a pauta. Apenas uma vaga idéia: – Jairo, parece que a Ericsson está distribuindo celulares de graça para quem repassar o e-mail que eles enviaram. Procure a Ana Smundsen, executiva de promoções de marketing e veja se consegue uma entrevista. Disse apenas que “sim, senhor”. E pronto. Gastou horas e horas e horas no telefone, tentando descobrir o tal do departamento de Promoções e Marketing na Ericsson. Descobriu o óbvio, existe um departamento de Marketing e um de Promoções. Não havia promoções de marketing. Como ele era pago para se comportar como um perfeito idiota, fez jus ao seu salário e perguntou para todos com quem conversou sobre como falar com a senhorita, ou seria senhora, Ana Smundsen. Novamente o óbvio ululante lhe saltou aos olhos: ninguém ouvira falar dessa executiva. Completamente de saco cheio, porém consciente de seu dever de ser uma besta, enviou toneladas de e-mails ao serviço de atendimento da Ericsson e também a alguns contatos seus que trabalhavam em importantes órgãos de comunicação. Alguns até mais importantes do que o suplemento de informática. Satisfeito em ter dado corpo à ignorância coletiva, levantou-se da sua mesa pontualmente às 18 horas e tomou o caminho de casa. Após um macarrão instantâneo, um cochilo no teclado do computador do seu exíguo quarto lhe parecia a mais confortável das opções para aquela noite tépida. Qual não foi a sua surpresa quando letras verdes começaram a surgir no monitor à sua frente. “Eu sei porque você está aqui, Jairo. Eu sei o que você esteve fazendo... por que você dorme tão pouco, por que vive sozinho e por que noite após noite você se senta em frente ao seu computador. Você procura por ele. Eu sei porque eu já procurei pela mesma coisa. E quando ele me achou, ele me contou que eu não estava procurando por ele. Eu estava procurando por uma resposta. É a pergunta que nos conduz, Jairo. É a pergunta que te trouxe até aqui. Você sabe qual é a pergunta, Jairo, assim como eu soube”. - Ahn... Quanto foi o jogo do palmeiras? Qual a resposta para o universo? Por que tão poucas pessoas gostam de aliche? Quem matou Salomão Hayala? “A verdade está lá fora, Jairo, e ela está procurando por você. Ela vai te encontrar se você quiser”. Incerto se havia sonhado com tudo aquilo ou não, Jairo acordou no dia seguinte com o estômago revirado e prometera a si mesmo que comer macarrão instantâneo sabor camarão tudo bem, mas mandar uma dose de Cynar em cima era demais. Chegou pontualmente atrasado como era de hábito e sentou no seu computador. A primeira coisa que viu era um e-mail de anasmundsen@ericsson.com. Então ela existia de verdade! Mas o e-mail era sucinto. “A Microsoft e a AOL estão rastreando os seus e-mails. A verdade está lá fora”. Jairo coçou a cabeça e gastou alguns minutos tentando decidir o que fazer com aquele e-mail. Quando pensou em responder, recebeu outro logo em seguida, também da tal da Ana Smundsen. “Eles te descobriram. Pegue o celular na mesa ao lado”. Ahn? Exatamente nessa hora, o celular na mesa ao seu lado tocou estridente. Jairo agarrou o aparelho e atendeu, escondido sob a mesa. Uma voz feminina lhe instruía. Jairo de quatro no chão se arrastava da melhor forma possível tentando se esquivar dos agentes de terno preto e óculos escuros que se dirigiam à sua mesa. Era verdade, era tudo verdade! A voz prosseguia. – Agora esconda-se atrás da samambaia... Alguém precisa regar essa planta, coitada... Aguarde... Ok, agora vá até a porta do armário de vassouras e entre por ela. Jairo rastejou mais e mais e chegou finalmente ao armário de vassouras, abriu a porta e fechou-a atrás de si. Uma ampla janela se abria para a vasta cidade a partir do vigésimo andar. – Tem uma janela no armário de vassouras? Porra, eu trabalho olhando para a parede... Jairo olhou para a vertiginosa queda que se seguiria e para o precário andaime de obras que rangia enferrujado ao sabor do vento. – Elevador? Isso é um andaime! Essa porra vai despencar! – Vai Jairo, agora! – A voz feminina insistia. Debruçado para fora da janela, sentiu sua blusa ser puxada para trás pelos agentes de preto. Com o susto, deixou o telefone despencar em câmera lenta enquanto era subjugado pelos homens de óculos escuros. Preso entre braços fortes, sentiu escurecer a vista e apagou. Jairo acordou deitado em uma banheira de gelo em um lugar sujo e fedido. Tremia. A pele ardia como se fosse atacado por um milhão de facas. Levantou-se debilmente e sentiu as dores nas costas. Tateando, encontrou costuras precárias feitas em dois cortes largos. Enquanto observava as profundas feridas num caco de espelho que restara pendurado na parede, notou um bilhete escrito à mão em letra feminina em cima da pia. “Roubamos os seus rins. Se você voltar para a banheira e ligar imediatamente para o hospital, talvez você sobreviva. Ah, você deixou o celular cair da janela do escritório? Ih, se fudeu...”
*Felipe Tazzo escreve no Morfina às segundas-feiras. Mas como, devido ao feriado, somente atualizamos o site na terça, resolvemos publicar a escelente crônica do rapaz na seção de convidados. Além do que,m está grande pra porra e você, provavelmente, precisará de mais do que um dia para lê-la.
coisas que acontecem por aí sempre acontecem com
Felipe Tazzo | Misericordiosamente comentado por 6 sublimes almas
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