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Cafeína e nicotina
Cafeína e nicotina
Segunda, 17 de Outubro de 2005
* Texto publicado originalmente na seção Genericos
por Luana Azeredo*
Uma boa estada em Buenos Aires passa, necessariamente, por boas nuvens de fumaça e alguns litros de um forte e bem tirado café. Fuma-se muito cigarro e bebe-se muito café. Ou, melhor, senta-se muito nos cafés para encontros românticos, paquera, debates filosóficos, debates politicos, reuniões de trabalho, leitura matinal de jornal, leitura vespertina de jornal, leitura de qualquer coisa, encontro de qualquer espécie. Entre um cortado* e outro passam-se horas sem que o garçom reclame ou algum incoveniente qualquer interrompa a conversa.
Em todos os cantos do mundo, o café tem inspirado revoluções, polêmicas, amizades e namoros. Dizem que em algum tempo, Buenos Aires teve um café em cada esquina e que nas mesas, uma xícara de café parecia interminável, assim como a nostalgia impregnada pela fumaça de um cigarro.
Os cafés fazem parte da estrutura social dos portenhos e de sua história. No Microcentro, nos cafés mais antigos, senhores de terno puído parecem estar ali há séculos, já fazendo parte do cenário, entre um café, um trago e uma factura escolhida sem muita demora na cesta do balcão (as facturas costumam ter formatos diferentes mas são essencialmente a mesma coisa, massa, creme e açúcar de confeiteiro. Portanto, quando se deparar com uma dessas cestas, não perca tempo escolhendo). Em Palermo, nos restaurantes da moda, jovens estilistas, ou designers, ou arquitetos, ou jornalistas, ou mesmo desocupados de plantão miram o horizonte ou o fundo do olho do outro e degustam lentamente um café após o outro, até que a tarde caia e as ruas se encham de locais e visitantes em busca de diversão.
Fuma-se nos elevadores, nos corredores, nos arredores, nos interiores. Fuma-se porque está solitário, porque é solitário, porque está na solitária, porque está em grupo, porque bebeu, porque fez amor, porque acabou de tomar um café. Toma-se um café em cada esquina, no maxikiosko, no McCafé, no Cafe Tortoni vendo um tango ocasional, no La Biela vendo a elite local, no café do museu, no café da moda, depois do almoço, porque se espera, porque se tem muito a debater, porque a noite ainda é longa, porque o dia mal começou, porque é gostoso, e daí?
Ficou com uma vontade irresistível de tomar café e fumar em Buenos Aires? Aí vão algumas dicas de cafés onde fumar, sentar, ler, fazer reuniões, observar os habitantes da cidade, dividir mesa, puxar conversa:
Clásica y Moderna – Av. Callao 892 – uma aconchegante e sofisticada livraria-café, oferece também espestáculos de jazz e música popular.
La Biela – Av. Quintana, 598 – a elite portenha (muitas vezes decadente) bate ponto no La Biela cujas mesas já foram frequentadas por Jorge Luís Borges.
Cofitería Ideal – Suipacha, 384 – decandente, precisando de uma reforma, mas com um encantador show de tango proporcionado pelos senhores e senhoras locais. Sente, peça seu café, acenda seu cigarro e assista o bailar dos casais.
La Puerto Rico – Alsina, 420 – local de encontro de amigos de longa data ou espaço para reuniões intermináveis das empresas do centro. Não saia de lá sem comprar seu pacotinho de café moído na hora – o pó vem na mesma embalagem desde 1887.
Café Tortoni – Av de Mayo, 825 - o maio famoso da cidade, conserva a arquitetura do século 19 com seu salão imponente e cheio de vitrais.
El Británico – Brasil, 399 - em frente ao Parque Lezama - acomode-se e tome vagarosamente seu café enquanto olha pela janela. Dizem que alí o escritor Ernesto Sábado rabiscou as primeiras páginas de seu livro “Sobre Heróis e Tumbas”. Abriu em 1928 e literalmente NUNCA fechou.
El Gato Negro – Corrientes, 1669 – vá para tomar um café e acabe enebriado pelo forte cheiro das dezenas de temperos e especiarias vendidas no local.
Bar 6 – Armenia, 1676 – escolha uma das boas revistas importadas à disposição e fique por horas esparramado em um de seus sofás.
* Cortado = café expresso com um pouco de leite. Seria o nosso pingado mas que só eles tiram à perfeição. Com a exata quantidade de leite que o caboclo deseja.
*Luana Azeredo – publicitária brincando sério de fazer moda, escreve eventualmente e curto e nada grosso em seu blog. É filha de uma argentina. Não fuma. E tem evitado tomar muito café.
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