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Batatas Orgasmáticas

Sexta, 18 de Novembro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Genericos

por Felipe Tazzo*

Índice

Orgulho
Gula
Luxúria
Inveja
Ira
Avareza
Preguiça

- Você vai ver, o chef desse restaurante é absolutamente fantástico. Ele fez aquele curso na Suíça... – e falava e falava do restaurante. – Depois você me diz se alguém já te levou num restaurante tão fantástico como esse. É realmente fantástico. Você não vai acreditar.
- Fantástico – ela sorriu.

Chegando ao distinto local, ele desceu apressadamente do seu lado, tropeçou nos próprios pés e conseguiu chegar ao outro lado do carro ainda com alguma compostura para – veja só – abrir a porta para ela.
- Você vai ver que restaurante – ele se gabava. Ela ainda apenas sorria.

Entraram, sentaram, pediram, esperaram e conversaram sobre nada importante até chegarem os pratos. Scalopini provençal com batatas soutée para ela. Mignon ao molho de aspargos para ele.

- Ah, agora você vai ver que coisa fantástica que é esse chef.
Como boa dama, ela pousou o guardanapo de pano ao colo e com o garfo partiu um pequeno pedaço da malemolente batata, que abriu-se como uma flor, liberando a fumaça branca do calor que dançava no ar. Tragou uma porção e fechou os lábios finos no garfo. Sua respiração foi contida por um momento, depois solta lentamente, com os olhos fechados.
- Não é fantástica? – ele pergunta, sem nem ter tocado no próprio prato.

Ela olha em volta, envergonhada. Será que alguém percebeu? Parecia tudo normal. Ninguém lhe olhava, mas ela se sentia pelada. Do outro lado da mesa o olhar ansioso esperava a confirmação. Ela só pode deixar um fio de voz escapar.

- Fantástica.
- Olha aí, não falei? Eu não sei o que esse cara coloca nos temperos dele, mas... – e continuou falando, pontuando seu discurso com um “fantástico” ou outro.
 
Ela desconfiada, mas desejosa deu outra garfada nas batatas souteé e colocou na boca, timidamente. O efeito era o mesmo. Imediatamente suas partes íntimas começavam a esquentar e como um raio, ela era atingida. Desta vez, ela quase levantou da cadeira com a contração dos músculos.
Limpou as batatas do prato e abandonou lá o Scalopini.

- ...aí, como você sabe, em Munich eles têm um tipo diferenciado de água para cozinhar, claro que os ingredientes devem ser os melhores, os mais fantásticos... Você está prestando atenção em mim?
- Garçom! Garçom! Você pode pedir ao chef um pouco mais dessas batatas por favor?
- Ei, eu estou falando com você!
- Pode falar, estou ouvindo.
- Não parece... – não é a toa que não parecia, ela já estava com a maquiagem borrada e levemente descabelada.

Seguiu-se um silêncio desconfortável até chegarem mais batatas, nas quais ela deleitou-se imediatamente.

- Então... Bem... pelo jeito você gostou mesmo das batatas.
- Hum! – ela gemia, com a voz esganiçada, revirando os olhos e torcendo de lado o pescoço.
- Deixa eu experimentar um pouquinho...?
- Não! – Ela cercou o prato com o braço, erguendo a voz. Algumas poucas cabeças no restaurante se viraram para observar e ele acovardou-se.
- Tá bem, tá bem... – Ele aguardou que ela abaixasse a guarda e com um golpe rápido, garfou o último pedaço da batata do prato e levou à boca, sendo interrompido no último momento pelo tapa da mão dela, que jogou batata para um lado e garfo para o outro, rasgando o lábio dele, fazendo brotar duas gotinhas de sangue.
- Sua louca, olha o que você fez!

Mas ela não ouvira. Estava de quatro no tapete, buscando o restinho da batata. Isso ele não poderia suportar. Quem ela achava que era? Pegou-a pelo braço e ergueu-a do chão, preparando uma sonora bofetada que limparia o resto daquelas malditas batatas de seus dentes, mas o maître e um dos garçons já estavam de olho no lance e conduziram aquele casal pervertido para um cantinho mais discreto.
A discussão que se seguiu foi acalorada entre as quatro pessoas e terminou no famoso paga-não-pago de fim de noite. O garçom voltou para o trabalho, a mulher pegara um táxi e o homem se recusava a abrir a carteira para sustentar os delírios sexuais daquela tarada.

- Ah é assim é? Não quer pagar, tudo bem, pode se entender com o Geni. Ô Geni! – Ele berra lá para dentro. O cidadão aqui não quer pagar.

Aparece Genival, cearense arretado, auxiliar de cozinha e leão de chácara. Dois por dois fartamente distribuídos; juntou o moço pelo cangote e arrastou para a entrada de serviço do restaurante e o atirou no meio dos sacos de lixo. Por cima de seu ombro, o maître deu a ordem e sumiu restaurante adentro:

- Dá uma esculhambada nesse playboyzinho aí e joga ele na rua.

O homem já estava totalmente apavorado quando viu aproximar-se o homenzarrão. Geni olhou aquele fiapo de gente branquelo se borrando todo, coçou a barriga cabeluda que aparecia sob a camiseta do timão e soltou:

- Ai, que preguiça... Faz o seguinte: se bate aí um pouquinho e já pode ir embora.
- Como é?
- Se bate. Dá umas porradas em você mesmo. Depois você vai.
- Bater em mim mesmo?
- Prefere que eu faça?

Não sendo bobo nem nada, naquele dia ele tomou a maior sova de si mesmo que alguém podia. Depois foi embora. Fantástico.


* Felipe Tazzo é publicitário, escritor, dramaturgo e não tem nenhuma pretensão de ser bom em nenhum dos três, mas adoraria ser rico e/ou famoso. Leia mais aqui.

por Vanessa Marques | 5 alguéns