Blogs do Morfina
Menu Lateral
Perticipe do Morfina Sobre o Site Fala com a gente Acesso o arquivo Participe do Morfina
Home > > Tigres no paraíso

Tigres no paraíso

Segunda, 10 de Janeiro de 2005

* Texto publicado originalmente na seção Efeitos colaterais



Na minha infância, sempre quis conhecer Sumatra. E isso se deve ao livro que mais gostava quando criança, que trazia a história dos tigres que vivem na ilha. Amava todas as ilustrações e via cada uma centenas de vezes diariamente. Meu velho pai dizia que eu iria gastá-las de tanto que as olhava.

Mas isso foi há muitos anos. Cresci e acho que passei ao meu filho esta minha antiga paixão. Hoje, entretanto, claro que ele não se limita a ver os tigres no papel, já que existem tantos vídeos e DVDs sobre a vida selvagem.

(...)

E acho que trabalhamos tanto durante o ano, não é mesmo!? Merecemos um presente de vez em quando. Pensando nisso, três semanas antes do Natal, contei a novidade a minha família: íamos ter um final de ano diferente, conhecer diversos lugares paradisíacos e finalizar nossa viagem a tão sonhada Sumatra. Embarcamos para a Ásia no dia 20 de dezembro...acho que você já sabe o que aconteceu por lá alguns dias depois.

(...)

Quando vi, já sabia o que era... e não falo por falar. Sou geólogo, aí está a ironia nisso tudo. Participei como consultor de documentários sobre o tema e, se estivesse no meu país agora, certamente estaria dando entrevistas, explicando didaticamente o que aconteceu. Mas mesmo para um especialista, tudo foi muito rápido. Do momento do recuo à chegada da água, só tive tempo de pegar meu filho caçula, que brincava ao meu lado na areia, correr e gritar para minha mulher. Procurávamos nossa filha adolescente quando fomos pegos em cheio.

Imagino o que jornais e tevês do mundo todo devam ter relatado sobre este momento, mas garanto que não há nada que possa descrever o que aconteceu...

A massa de água chegou com uma força descomunal, varrendo tudo que encontrava na praia. De onde estava, era possível enxergar mais de cinco quilômetros de costa e a areia estava cheia de turistas e nativos naquele instante. Desculpem-me o comentário, mas assim que as coisas se acalmaram, o que pensei é que ninguém pode dizer que a água não foi democrática. A força arrastou o novo e o velho, uniu todas as cores e lavou as crenças mais diversas: o budista e o hindu, cristãos e mulçumanos, judeus, ateus, cientistas... foi além e invadiu toda a ilha, praticamente riscando-a do mapa. Enfim, fundiu o Oriente e o Ocidente.

Mas agora tudo está em paz para nós, os desaparecidos. Aqui, a mais de 30 metros debaixo d’água, é o que todos somos. Esta água, que já foi azul-turquesa e transparente, está turva e cheia de todo o tipo de destroços. Mas estou tranqüilo, pois ao menos estou junto da minha família.
Vejo muitas famílias juntas também. Tenho meu filho nos braços e minha mulher também acabou ficando presa bem perto de nós. Da minha filha, eu não sei, mas acredito que tenha sobrevivido, pois ela sempre foi muito esperta... a minha pequena.

Confesso que, embora nunca tenha pensado muito nisso ao longo da vida, gostaria de saber para onde vamos agora. Arrisco dizer que todos podem até ter um palpite, mas ninguém sabe de fato. Só meu filho está triste, porque não tínhamos conseguido ver os tigres. Íamos para Sumatra somente na manhã seguinte ao maremoto. Tenho falado para ele que para onde vamos agora existem tigres, que vivem soltos conosco e que são bem mansinhos. Ele está eufórico. E, sabe, eu também estou. Afinal, quem sabe não seja verdade?



escrevi e saí correndo: Fábio Inverídico | 7 comentários