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Peixe na seca

Quinta, 10 de Julho de 2008

A Lei Seca é assunto em todos os lugares, principal e ironicamente, nas mesas de bar. Mas, como as conversas de boteco são movidas a álcool, essa não vai muito longe. E não só essa: com o aumento das restrições ao consumo de bebidas por motoristas, a tendência é o fim das inacabáveis discussões a respeito de nada, comuns entres freqüentadores de pés sujos e de lugares que cobram R$ 4,50 por um chope. Sóbrios, são poucos os capazes de defender por horas teses como a incoerência da palavra “infinito” – infelizmente sem ter bebido, recentemente presenciei um debate acalorado sobre a questão. Ou, então, de contestar com paixão a péssima fase do seu time, apresentando provas históricas e irrefutáveis de que ele vai sair dessa. Sem umas três na cabeça, o torcedor, resignado, limita-se a baixar a cabeça e pedir para aquilo passar rápido – a conversa e o campeonato. Eu, como santista, por força das circunstâncias, abstêmio, vejo-me nessa situação.

O Santos, ao que parece, também resolveu submeter seus torcedores à Lei Seca. Mas a uma outra, bizarra, em que, ao invés de cervejas e drinques, restringe-se a degustação de gols e vitórias. Parafraseando aquele corintiano sem o dedinho direito, nunca na história do Campeonato Brasileiro meu time começou tão mal. Em dez jogos, o Alvinegro Praiano soma cinco derrotas, quatro empates e apenas uma vitória, conquistada na já muito distante segunda rodada. Somente sete pontos. Um desempenho que, para ser pífio, ainda precisa melhor um bocado.

Mas não se pode acusar a diretoria de não fazer nada para mudar a situação. Tem feito muito – mas, ao que parece, o feito não é o certo. Desde as primeiras rodadas, muita coisa mudou. Mudaram os jogadores (foram contratados, se não me engano, sete), mudou o técnico (o eterno vice Cuca assumiu o lugar de Leão, após a inesperada desclassificação da Libertadores), mudou o desempenho do Kleber Pereira (um dos maiores artilheiros do ano no Brasil, o atacante está sem marcar desde... desde quando mesmo?). Só não mudou a faixa que o Peixe ocupa na tabela. Desde o começo da competição, temos nos acostumado a ver o Santos na zona do rebaixamento. Ao mesmo tempo, nos desacostumamos a comemorar vitórias. Um amigo, sofredor como eu, me disse ontem, após o tento de Michael contra o Grêmio, que já nem se lembrava o que era gritar “gol”. Nem eu. E, como não assisti ao gol quando saiu, continuo sem lembrar.

A julgar pelos últimos dois jogos, o Santos caminha para reverter esse quadro lastimável. Pelo que vi ontem, o time apresentou melhor toque de bola e articulação de jogadas, mandando algumas bolas na trave, sem contar as oportunidades desperdiçadas e as boas defesas do goleiro do Grêmio. Certas contratações, como os desconhecidos Maikon (era reserva do Santo André!) e Apodi (também era banco, mas pelo menos do Cruzeiro), além do ex-palmeirense Michael, mostraram-se promissoras. Se, ao lado deles, atletas já consagrados no Glorioso – Kleber e seu xará Pereira, principalmente – resolverem jogar o que sabem, o Santos sai dessa. Se não para disputar o título, ao menos para candidatar-se a uma vaga na próxima Libertadores. Ou a um lugar na Sul-Americana – que é o mesmo que nada. Quer saber? Se não for rebaixado, já está de bom tamanho.

A Lei Seca tem que acabar. Ou no Santos ou no Brasil todo. Porque, se o meu time não reagir no Brasileirão, vou ser obrigado a encher a cara. Se bem que, com a presença dos torcedores dos outros times nos bares, o melhor talvez seja fazer isso em casa.

Aquela coisa toda por Leandro Leal | 2 descendo o pau