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Voltando para casaQuarta, 27 de Fevereiro de 2008* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Certo dia, corriqueiro, como outro qualquer, perdi a carona para casa.Fiquei vagando pela imensidão do estacionamento, simplesmente refletindo o fato de ter que me virar de outras maneiras para retornar ao lar. Pegaria um ônibus, trem, metrô, um táxi caro? Ou procuraria outra carona? Nada, decidi de repente que não. Ou que sim, dependendo do ponto de vista. Iria aproveitar o raro acontecido para gozar um pouco a vida e caminhar, mesmo que uma eternidade, até chegar ao meu destino. Tive essa vontade. E comecei a seguir pela calçada, passando a pé, pela primeira vez, por locais onde antes só conhecia pelos rastros e rabiscos de cor através da janela do carro. Pude olhar nos olhos de alguns transeuntes simpáticos e apertar o passo frente outros não tão amigáveis. Gastei a sola, pisei na poça. Tropeços e exercícios mais tarde, sentei-me num banco de praça e assisti ao frenesi incontrolável das buzinas e da pressa mal-humorada. Pude até rir de tudo isso. Mas logo fiquei bem cansado. E ainda não tinha chegado nem à metade do caminho. Na verdade, não havia completado nem um terço do percurso. É, meu destino deve estar muito longe de chegar. Desisti da missão, entrei na primeira estação de metrô que cruzei e voltei-me ao corre-corre dos empurrões e do ar, condicionado a nos sufocar. Mesmo estando novamente ali, entre os apertos da rotina e o ordinário rush, senti que ainda era possível manter aquela idéia “carpe diem”, mesmo estando envolto às aflições dos que querem que tudo passe rápido, tudo acabe o quanto antes. E desejei curtir ao máximo aquela volta para casa num vagão lotado, poder apreciar cada rosto em minha frente, com o tempo durando o quanto fosse necessário, para que eu aprendesse o máximo possível num simples final de dia, voltando para casa.
Canalizado em PVC por
Ivan Volpe | um já regressou
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