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Voltaire, o prefeito e o YouTubeSegunda, 19 de Março de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Já há algum tempo, era comum ver por São Paulo outdoors com a campanha publicitária do uísque Johnnie Walker em que uma frase de efeito vinha acompanhada pelo nome de uma personalidade. Por exemplo, do trânsito você olhava para um imenso cartaz vermelho ou preto com os dizeres: "A dúvida é desagradável, mas a certeza é ridícula": Voltaire...Nada contra a frase, a campanha, a bebida, mas esse negócio de pegar todo o legado do iluminista francês ou de quem quer que seja e reduzi-lo a meia dúzia de palavras reunidas pra vender pinga de luxo é um troço meio esquisito... Quer dizer que fulano, beltrano ou sicrano vive uma vida inteira, pensando, escrevendo, discursando para, no fim, apenas contribuírem para a poluição visual das metrópoles? E mais... Quem garante que o Voltaire falou aquilo e, se falou, em que contexto ele falou? Certamente, não era pra vender cachaça de luxo... Era aqui que queria chegar. Por exemplo, no "Maria Antonieta", da Sofia Coppola, a personagem-título fica indignada quando lhe atribuem a frase "Se o povo não tem pão, que coma brioches." O filme dá a entender que ela nunca teria dito isso e que estava mais para coisa inventada pelo "Notícias Populares Parisienses" da época... Sim, conhecer Voltaire por um outdoor ou Maria Antonieta pelo cinema estão quase no mesmo nível de superficialidade, pois ambos não passam de produtos de consumo rápido. No caso dos dois exemplos acima, o filme vale ser visto, já o outdoor está ameaçado, desde que o prefeito Gilberto Kassab resolveu proibir ou restringir o indiscutível abuso que havia na cidade. E antes que alguém grite que estou defendendo a Prefeitura, explico porque o prefeito entrou nessa história. Graças à TV, todos vimos quando o homem "se irritou" um pouco com um homem que reclamava justamente da política de caça-propaganda da administração. E o YouTube tratou de imortalizar o esquete cômico, tornando os brados de "vagabundo" do prefeito acessíveis a quem tenha curiosidade e um mouse na mão. O que nos gera uma desagradável dúvida ou uma certeza ridícula: daqui para frente, cada palavra dos Voltaires e Marias Antonietas que venham a nascer estarão disponíveis na rede, tornando a poluição visual do futuro algo possível de ser verificada? Por sorte, devo ter uma garrafa fechada em casa para pensar a respeito...
escrevi e saí correndo:
Fábio Inverídico | 2 comentários
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