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Violência do inconsciente

Sábado, 1 de Setembro de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Era para ser uma simples ligação telefônica. O assunto não era dos mais agradáveis, porém, nada que já não estivesse acostumada a lidar. Quando Guilherme lançou a primeira ordem, Alessandra simplesmente respondeu que ele estava estressado e deveria tomar a dose noturna de floral de bach.

Guilherme não gostou da resposta. Ela já não era mais sua funcionária, nem amiga e tampouco namorada. Isso não o agradava e suas chances estavam esgotando. Com o iminente retorno de Alessandra à sua terra natal, o contato entre eles certamente diminuiria, com tendência a desaparecer.

Por alguns meses, ele havia buscado aproximar-se dela. Primeiro, de forma romântica. Não deu certo. Em seguida, como amigo. Também falhou, pois tinham pouca afinidade. Finalmente a convidou para trabalhar com ele. O relacionamento então foi criado, só que a confusão de propósitos do chefe acabou por torná-lo um dirigente autoritário, conflituoso e inconveniente.

Entretanto, tudo isso agora fazia parte do passado. A situação atual era outra. Alessandra havia quebrado o vínculo empregatício e Guilherme telefonou naquela madrugada sem nenhum álibi que justificasse o ato. Além disso, escolhera uma péssima maneira de tentar a reaproximação, porque as tais ligações noturnas nunca foram apreciadas pela ex-funcionária.

Após o conselho de Alessandra para tomar o floral, a conversa desandou. Guilherme andava meio perdido na vida e foi Alessandra quem o estimulou a tomar floral. Ela também tentou encorajá-lo a procurar terapeutas, centros religiosos, locais de reabilitação e outras iniciativas que pudessem trazer novas e boas referências. No início até ajudou, só que após o anúncio de que estaria voltando para sua cidade e deixando o emprego, mais uma vez tudo perdeu o sentido para Guilherme.

Começaram alguns gritos pelo telefone, em tons de ofensa e desaforo. Alessandra tentou ignorar, mas sentiu uma energia tão negativa que fez seu corpo estremecer. Ela se calou. Guilherme mudou o tom. Passou a sussurrar palavras indecifráveis, e mais uma vez Alessandra ficou muda do outro lado, sentindo uma péssima impressão. Ele então iniciou uma doentia tentativa de conquista, ejaculando frases eróticas, barulhos de beijos, chupadas e outras bizarrices que ela preferiu não tentar identificar.

A potência da energia negativa aumentava e Alessandra sentiu-se frágil. Não conseguia pronunciar uma palavra e nem mesmo desligar o telefone. Estava presa por alguma coisa intangível, que lhe oprimia e sufocava. O telefone parecia grudar em sua orelha e a impressão era a de que algo invadia o seu corpo, começando pelo ouvido e passando por todos os poros.

A violência das palavras e da postura de Guilherme a agredia de tal forma, que Alessandra teve a sensação de estar sendo estuprada. Tentou largar o telefone, mas sua mão estava amarrada ao aparelho por laços invisíveis. E ele continuava a exercer sua opressão.

Quando o abuso chegou ao auge da brutalidade, Alessandra conseguiu enfim gritar e se mover. Acordou no mesmo instante, com o coração disparado e aos prantos. Olhou para o telefone e ele repousava no gancho. Ao seu lado, apenas um peixe nadava aceleradamente no aquário e as malas prontas aguardavam pela mudança. Deixou a cidade no mesmo dia.

vem que é bão com a Rogéria | uma dose