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Verde, laranja, verde, laranja

Terça, 13 de Março de 2007

* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor

Tomo banho diariamente – ou, ao menos, quase que – observando uma pequena janela que dá para a rua. Desde meu prédio vejo algumas coisas, quase todas sem graça. O mais interessante, em geral, é uma ou outra nuvem que passa fazendo careta naquele pequeno espaço azul que sobra no céu apertado entre as fachadas de cinco edifícios em frente. No entanto, há um detalhe particular da paisagem que me chama a atenção no meio da indiferença dos edifícios cinza claros e cinza escuros: um apartamento com quatro janelas grandes com cortinas verde, laranja, verde, laranja. Evidentemente a paisagem cinza contrasta com a alegria destas cores e, diariamente, chama minha atenção por sua expressividade e alegria.

Em um primeiro momento, minha atitude era de curiosidade, queria ver quem morava neste lugar, entender o que estava por trás daquela alegria. Com o tempo, fui me conformando que não havia ninguém, pois as cortinas nunca se mexiam, nunca aparecia um rosto na janela, nunca uma silhueta trespassava algum dos laranjas. Ou dos verdes.

Pensei se não estaria desocupado o apartamento, o que logo descartei após refletir que um lugar abandonado nunca teria tanta alegria para mostrar. Pensei se não seria alguém se escondendo da polícia, do ex-marido, sei lá. Mas dificilmente alguém querendo ser discreto exibiria cores tão chamativas, expressivas. Por fim, desisti de interpretar e passei a simplesmente contemplar, agradecido por ter algo de bonito na paisagem da minha apertada e urbaníssima janela, entre os cinzas claros e escuros da cidade grande.

Em outras oportunidades, caminhando atento pela cidade – caminhando, porque de carro não se vê o caminho, apenas se sai e se chega – percebo inúmeros outros agrados anônimos pela paisagem urbana. Agrados que não têm necessariamente um propósito, desentendidos no contexto social atual, permeado pela relação uníssona do tal do custo-benefício. Agrados em uma cidade em que há tempos o anonimato e a indiferença já têm dominado as relações interpessoais entre desconhecidos. Uma cidade dominada pelo sentimento de não pertencimento, em que o sujeito não reconhece a praça, a rua ou sequer a própria calçada como uma extensão de sua casa e, portanto, não cuida, não enfeita, não aprecia. Usa e joga fora. Passa pela rua e joga um pacote de bolachas vazio no meio fio. Deixa o sofá quebrado na calçada alheia. Picha o nome no muro limpo, tachando descaradamente de arte.

Mas existem pessoas que cuidam de fazer a arte anônima, dentro ou fora de casa. Arte que ajuda a viver em sociedade: plantam uma árvore que provê sombra aos passantes; contratam um artista para pintar um painel na parede do edifício; fazem um grafite alegre ou até crítico; recolhem o cocozinho do poodle; fazem um mosaico na calçada; enfeitam sua janela com cortinas verdes e laranjas. Tudo isso sem saber a quê ou a quem servirá.

Às vezes não sei se as pessoas, os anônimos autores destas pequenas artes urbanas, têm a percepção dos pequenos agrados que fazem aos também anônimos que, ocasionalmente, se deparam, contemplativos, com uma destas pequenas obras de arte que provocam o espírito contemplativo do passante atento. Não creio que saibam ou se importem a quê ou a quem servirá. Importa mesmo, no final das contas, é subverter o tal do custo-benefício em prol de uma qualidade de vida melhor, sem pedir ou cobrar nada, ao menos nas pequenas coisas, nem que seja para tornar o banho do vizinho mais colorido.

    

O Aloísio que não é do campo é o Aloísio da Cidade | 3 leitores já mijaram neste póst