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Um século ou trêsQuinta, 25 de Janeiro de 2007* Texto publicado originalmente na seção Coluna do Autor Precisava sair dali. Estava soterrado por um cotidiano barato e simplista e não fazia idéia de como acabara parando ali. Começou trazendo umas duas peças de roupa, uma toalha. Depois comprou um jogo de copos para cerveja. Mais tarde trouxe uma escova de dentes reserva e uma meia dúzia de cuecas.O tempo passou. Ele passou a almoçar ali. Jantar um dia ou dois da semana. Final de semana, saiam. Quando não pegavam filme pra ficar em casa. Chegou a conta de luz, duas vezes mais que antes, teve de rachar. A empregada pediu aumento, o serviço aumentara por causa dele. Mês sim, mês não, ele a pagava. O carro não podia mais dormir na rua, alugou a garagem da senhora do 502, coberta. O tempo passou. Ele começou a não ir ao futebol de quarta, à sinuca de segunda. Não dava mais, não tinha tempo, já tinha combinado com ela. Se não fosse ia ser aquela briga. Não dava. Não dava mais as caras em casa. Venceu o contrato de aluguel, desocupou o imóvel. Não precisava mais. Melhor dividir o dela. Levou o aparelho de som, os discos, vendeu o que não prestava. “É três quartos, cabe tranqüilo”. Foi morar com ela. Passou a não ser, pois o tempo passou. Sempre passa. A rotina cresceu e pegou. Sempre pega. Ela falava de filhos ele de comprar um playstation, mas não dava, ela ia reclamar que não recebe atenção. O pessoal ligava pra um chope ou dois, ou um eventual porre pelo Rogério ter passado naquele concurso. Mas não tinha tempo, não dava. Tinha combinado o cinema, ou ir à janta na casa de fulana que trabalhava com ela. “Marlene ou Mariluce, acho”. Não dava pra não ir, tinha combinado. Se não fosse ela ia reclamar que não ganhava mais bola. O tempo passou. Ele passou a encolher-se. Em amoldar-se naquela vida. Em espremer-se a vida para caber na vida dela. Mas não dava mais. Precisava sair dali. Precisava muito. Precisava do futebol, da sinuca, de Rogério, do playstation, de solidão. Mas não dava. Ela ia queixar-se que não recebia mais atenção. Desistiu. O tempo passou. Ele passou. 25 anos passaram. Nada mudou. Mas é bom mudar de assunto, se ela escuta vai acabar não gostando.
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fezon, o que virá | Comente e ganhe prêmios! (4 caíram)
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